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A Semana na Imprensa

A Semana na Imprensa

Written by: RFI Brasil
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Uma leitura dos assuntos que mais interessaram as revistas semanais da França. Os destaques da atualidade do ponto de vista das principais publicações do país.

France Médias Monde
Politics & Government
Episodes
  • França enfrenta situação social explosiva e corrida presidencial cada vez mais fragmentada
    Oct 17 2026

    A menos de sete meses da eleição presidencial de 2027, a França vive uma campanha extremamente fragmentada. Cerca de trinta nomes já lançaram candidatura, refletindo o enfraquecimento das grandes forças tradicionais que se alternaram no poder nas últimas décadas. Em uma França abalada pelo alto custo de vida, déficit orçamentário e por uma situação social explosiva, as revistas francesas fazem um balanço do cenário atual.

    Le Nouvel Obs traz um amplo perfil do eurodeputado Raphaël Glucksmann, líder do movimento Place Publique e recém-escolhido candidato da esquerda social-democrata (moderada), após vencer, com 66,17% dos votos, a primária realizada com o Partido Socialista (PS), contra seu líder, Olivier Faure (14,46%).

    A reportagem detalha sua ruptura com Jean-Luc Mélenchon, principal figura da esquerda radical e líder do partido A França Insubmissa (LFI). O plano eleitoral de Glucksmann tem três etapas: unir a esquerda democrática e os ecologistas, atrair eleitores de centro desiludidos com Emmanuel Macron e conquistar o chamado voto útil para impedir a chegada da extrema direita ao poder.

    Atração por moderados

    Le Point explora os bastidores das relações entre socialistas e moderados, destacando François Hollande, ex-presidente socialista da França (2012–2017), que mantém uma postura de apoio distante enquanto aguarda uma eventual fragilização de Glucksmann diante da dureza da campanha.

    A revista identifica o desejo de uma "França silenciosa" por moderação e valores universalistas, em oposição à polarização dos extremos. Destaca também o novo livro de Jean-Christophe Cambadélis, ex-primeiro-secretário do Partido Socialista, no qual ele critica a perda de espaço da esquerda tradicional e denuncia a deriva populista de Mélenchon e a complacência com o antissemitismo.

    Programa irrealista da extrema direita

    Finalmente, L'Express volta-se para o Reunião Nacional (RN), principal partido de extrema direita da França, analisando o programa econômico defendido por Marine Le Pen, sua principal líder, e Jordan Bardella, presidente do partido e figura em ascensão.

    A revista apresenta uma avaliação do economista Antoine Levy, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, que classifica as metas fiscais do RN como "ficção científica" e "mágica contábil". Segundo sua análise, o partido camufla um rombo orçamentário com cortes de custos considerados irrealistas, incluindo €166 bilhões em economias, e subestima o custo real de sua proposta para as aposentadorias.

    A reportagem mostra ainda como os eurodeputados do RN, antes isolados no Parlamento Europeu, passaram a ser procurados por grandes empresas e grupos de lobby industrial.

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  • Imprensa francesa analisa as revoltas e violências pelo país diante do fracasso das instituições
    Oct 24 2026

    As manifestações estudantis e os protestos contra o alto custo de vida na França, que resultaram em confrontos, saques e atos de vandalismo em 17 de outubro, são destaque nas revistas semanais francesas. As publicações convergem ao apontar a dimensão excepcional da violência, mas apresentam leituras diferentes sobre suas causas e consequências.

    L’Express concentra-se no fracasso do dispositivo de segurança e na atuação de grupos violentos durante as manifestações. Sob o título “O dia em que a ultra esquerda colocou a França de joelhos”, a revista descreve uma ação coordenada em várias cidades, com a participação de grupos da ultra esquerda e de saqueadores oportunistas. Segundo a publicação, o governo foi surpreendido pela dimensão dos acontecimentos e as forças de segurança ficaram em alguns momentos sem condições de proteger determinados alvos.

    Em entrevista à revista, o historiador americano Julian Bourg distingue o movimento social das ações violentas. Para ele, os episódios resultam da combinação de diferentes dinâmicas, entre elas a atuação dos black blocs e a chegada de jovens de bairros desfavorecidos. Bourg chama atenção para o caráter aparentemente não político de parte das destruições: segundo ele, cerca de 1.500 estabelecimentos foram atacados sem que fosse possível associar os atos a reivindicações específicas. Ele fala em uma “violência instrumental que não se vincula a nenhuma ideologia” e alerta para uma possível dinâmica de caos e desagregação social.

    Enfraquecimento das instituições

    Le Point amplia a discussão para a crise da autoridade e o enfraquecimento das instituições. No editorial intitulado “Caos por toda parte, autoridade em lugar nenhum”, Saïd Mahrane interpreta os saques e confrontos como consequência da perda de mecanismos de autoridade e de controle social. A revista sustenta que o Estado já não consegue exercer a mesma força de controle e relaciona a violência à própria sociedade de consumo.

    O filósofo Pierre-Henri Tavoillot, em entrevista intitulada “Estamos nos aproximando da guerra civil”, considera que a violência passou a ocupar um lugar mais comum na ação política e vê uma crescente polarização entre duas visões inconciliáveis da situação. Ele também rejeita a ideia de que a violência possa ser explicada simplesmente pelas dificuldades enfrentadas pelos jovens.

    O historiador Thibault Tellier, também entrevistado pela revista Le Point, acrescenta outro elemento: o enfraquecimento dos sindicatos e dos partidos como intermediários dos movimentos sociais. Segundo ele, a despolitização e a perda de influência sindical reduziram a capacidade de canalizar as reivindicações e de controlar os excessos durante as manifestações. O historiador chama esse processo de “desaprendizagem da democracia”.

    Falhas na preparação de policiais e no serviço de inteligência

    Já Le Nouvel Obs questiona a tendência de transformar os acontecimentos em um debate exclusivamente sobre segurança e ordem pública. No texto intitulado “Retorno sobre um fiasco”, a revista aponta falhas na preparação das forças de segurança e no trabalho de inteligência. A estimativa oficial de público teria ficado muito abaixo da dimensão real da mobilização, enquanto os serviços de informação haviam identificado previamente um risco elevado de violência.

    Em entrevista, o filósofo Tristan Garcia afirma que o risco é que os saques e confrontos acabem apagando as reivindicações que deram origem ao movimento estudantil. Para ele, a mobilização tinha apresentado reivindicações concretas sobre educação e condições de estudo, antes de ser parcialmente eclipsada pela violência.

    Garcia também rejeita uma explicação única para os acontecimentos. Segundo ele, tanto a direita quanto a esquerda tendem a recorrer a interpretações prontas para explicar a violência, sem necessariamente analisar quem participou dos confrontos, onde ocorreram e por que ocorreram. Ele prevê ainda que os episódios possam favorecer eleitoralmente a direita e a extrema direita.

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  • O que pensa o coach de alguns dos principais empresários da França
    Sep 5 2026
    O psiquiatra e coach francês Éric Albert é uma figura relativamente desconhecida do grande público, mas extremamente influente nos bastidores do empresariado da França. A revista Le Point acaba de publicar uma extensa reportagem sobre ele, que já trabalhou com dirigentes de cerca de dois terços das empresas do índice CAC 40, as maiores companhias listadas na Bolsa de Paris. Para Éric Albert, o sucesso dos grandes executivos depende menos da inteligência técnica e mais da capacidade de administrar emoções, escutar equipes e lidar com o próprio ego. A principal tese defendida pelo coach é que a inteligência emocional diferencia os líderes de alto desempenho, segundo a reportagem. Albert argumenta que os melhores alunos nem sempre são aqueles que chegam mais longe profissionalmente. O fator decisivo seria a capacidade de controlar impulsos, gerir ansiedade e adaptar comportamentos diante de situações complexas. Essa ideia é ilustrada pela reportagem com o famoso "teste do marshmallow", experiência psicológica que mede a capacidade de adiar recompensas imediatas. Para Albert, essa competência é mais determinante para a liderança do que os diplomas de elite obtidos em instituições como a École Polytechnique ou a antiga École Nationale d'Administration (ENA), ambas na França. O maior perigo para os dirigentes: a arrogância Outro ponto que chama atenção é a visão de Albert sobre o chamado "hubris", termo grego associado ao excesso de confiança e à arrogância. Segundo ele, muitos líderes acabam acreditando que não precisam de ajuda porque são inteligentes ou ocupam posições de poder. A reportagem relata inclusive que, apesar de intermediários tentarem organizar encontros entre ele e Emmanuel Macron, o presidente francês jamais aceitou. Para Albert, a crença de que não se precisa de aconselhamento está entre os maiores riscos para quem exerce funções de comando. O poder da escuta Ao contrário da imagem estereotipada dos coaches motivacionais, que apresentam fórmulas prontas e discursos sobre alta performance, Albert é descrito por seus clientes como alguém cuja principal qualidade é ouvir. Seu trabalho consiste em oferecer aos dirigentes um espaço onde possam falar livremente sobre dúvidas, medos, conflitos internos e decisões estratégicas sem receio de vazamentos. A reportagem destaca que ele se torna depositário de segredos empresariais, financeiros e humanos, conhecendo muitas vezes antecipadamente processos de sucessão, fusões e mudanças de gestão. A condição fundamental para esse trabalho é a confidencialidade absoluta. O líder não precisa só decidir, precisa convencer Talvez a observação mais relevante para gestores seja sua distinção entre competência técnica e capacidade de liderança. Segundo Albert, muitos executivos chegam ao topo por serem especialistas brilhantes. O problema surge quando passam a liderar equipes numerosas. Em suas palavras, ninguém ensina verdadeiramente a gerir pessoas. A partir daí, o sucesso depende da capacidade de persuadir, tranquilizar, ouvir e criar consenso. A reportagem cita como contraexemplo o ex-dirigente da Stellantis, Carlos Tavares. Embora reconheça sua competência estratégica, Albert avalia que ele teria operado dentro de um repertório comportamental muito limitado, baseado excessivamente em pressão e cobrança, sem conseguir adaptar seu estilo às diferentes circunstâncias. A necessidade de alguém que diga a verdade Outro ensinamento interessante é que, quanto mais alto alguém sobe na hierarquia, menor tende a ser o número de pessoas dispostas a contradizê-lo. A matéria reproduz o depoimento de Éric Lombard, ex-ministro da Economia da França, segundo o qual dirigentes acabam frequentemente tratados como "deuses vivos". Por isso, precisam ao seu redor de alguém capaz de dizer verdades incômodas. O papel de Albert seria justamente funcionar como esse interlocutor independente, livre das pressões políticas e corporativas que cercam os grandes executivos. O segredo das empresas familiares A reportagem também mostra que parte importante de seu trabalho ocorre nas grandes empresas familiares. Um dos exemplos relatados é o processo sucessório da Sodexo. Em vez de o fundador impor sozinho a escolha do sucessor, Albert teria incentivado os herdeiros a construir coletivamente o método de seleção. O resultado foi a escolha de Sophie Bellon, aceita consensualmente pela família. Segundo a revista, a solução evitou conflitos e preservou a estabilidade do grupo. A inteligência coletiva acima dos egos Para Albert, a grande questão das organizações modernas não é apenas encontrar líderes talentosos, mas fazer com que líderes talentosos trabalhem juntos. Seu foco está nos comitês executivos, os grupos que concentram o poder das grandes empresas. Ele considera que reuniões dominadas por disputas de ego ou pela falta de atenção comprometem a qualidade ...
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