• Tijucanas em Copacabana
    Feb 20 2026

    Neste episódio de Uma Vida e Muitas Histórias, celebramos o orgulho de ser tijucana.

    Criada na Tijuca, na zona norte do Rio, ela viveu uma época em que morar longe da praia era quase motivo de discriminação social. A elite estava na zona sul. A zona norte era “cafona”, diziam. Mas quem morava lá não estava nem aí.

    Eram felizes.

    A única dificuldade era a distância da praia. Sem túneis, sem facilidades. Ônibus lotado, um verdadeiro passeio pelo Rio inteiro até finalmente chegar ao mar de Copacabana.

    Até que surge a solução perfeita: a amiga Serlinda descobre que o tio tinha um apartamento vazio na Avenida Atlântica.

    De frente para o mar.

    Fechado, com cheiro de mofo, sem lençol, sem toalha — mas com a vista mais deslumbrante do mundo. Um simples lugar para trocar de roupa virou o passaporte para um sonho adolescente.

    Abrir a janela e ver aquele mar azul foi como viver um verso de música:

    “Dia de luz, festa do sol e o barquinho a deslizar no macio azul do mar…”

    Por algumas horas, eram moradoras da Avenida Atlântica.

    Depois da praia, vinha o ritual: almoço no Bob’s — a grande novidade da época, perto do antigo Cinema Rian. Cachorro-quente dividido, Coca-Cola, risadas. Tudo com a leve pretensão divertida de quem se sentia parte daquele cenário.

    Sentadas na cozinha simples do apartamento vazio, curtindo o resto do dia, planejando mais uma volta pela praia antes de pegar o ônibus de volta às 5 da tarde.

    Era simples. Era improvisado. Era mágico.

    Mais do que praia, era liberdade. Era juventude. Era amizade.

    Este episódio é uma declaração de amor à Tijuca — bairro que moldou caráter, identidade e memórias. E também uma homenagem às amigas que transformam pequenos privilégios em aventuras inesquecíveis.

    Porque, no fundo, não importa onde você mora.

    Importa como você vive.

    E, por algumas horas, elas foram moradoras da Avenida Atlântica.

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    3 mins
  • Meu Tipo Inesquecível
    Feb 20 2026

    Neste episódio de Uma Vida e Muitas Histórias, voltamos à quarta série ginasial e a uma história que mistura ingenuidade, coragem e amor pela palavra escrita.

    Tudo começa no tradicional Instituto de Educação do Rio de Janeiro, sob a orientação de um professor que viria a se tornar um dos maiores filólogos do país: Evanildo Bechara.

    Entre temas de redação pouco convencionais — como “A decadência do Carnaval carioca” ou “Minha opinião sobre a volta de Grace Kelly ao cinema” — surge um que mudaria tudo: “Meu Tipo Inesquecível.”

    Mas a história começa antes.

    Aos 11 anos, na primeira série do ginásio, um professor apaixonado pela obra de Álvaro Moreyra falava incessantemente sobre suas crônicas. Veio a prova. E, numa dedução típica da lógica infantil, surgiu a ideia improvável: se a prova pode cair sobre a vida do autor… por que não ligar para ele?

    Consultando a lista telefônica, encontra o número. Liga. E, do outro lado da linha, o próprio escritor.

    Era seu aniversário. A casa estava cheia de convidados. Ainda assim, ele deixou tudo para conversar com uma menina de 11 anos que queria saber sobre sua vida para tirar uma boa nota.

    Durante quase uma hora, contou sua trajetória — do início no sul do país à recente eleição para a Academia Brasileira de Letras, onde assumiria a cadeira 21, a “cadeira da Liberdade”.

    Anos depois, ao escrever a redação “Meu Tipo Inesquecível”, essa história foi narrada em sala. Ao terminar a leitura, o professor Bechara fez apenas duas perguntas:

    — Foi verdade?

    — Posso guardar sua redação para uma antologia?

    O tempo passou. O professor também se tornaria imortal na Academia Brasileira de Letras. Uma carta foi enviada. Uma resposta foi guardada como tesouro.

    E houve ainda o desejo de entregar pessoalmente o convite de formatura ao escritor que um dia atendeu o telefonema. Mas o destino interrompeu esse encontro: Álvaro Moreyra faleceu quatro meses antes da colação de grau.

    Este episódio é sobre coragem inocente. Sobre o poder de um gesto simples. Sobre a ponte entre gerações. Sobre como uma menina de 11 anos, armada apenas de um telefone e curiosidade, construiu uma memória eterna.

    É também uma homenagem ao Instituto de Educação — berço de mestres, de imortais, e de histórias que nunca deixam de viver.

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    10 mins
  • A Dois Metros do Ídolo
    Feb 20 2026

    Neste episódio de Uma Vida e Muitas Histórias, mergulhamos em uma paixão musical que começou como ilusão — e terminou como realização de um sonho.

    Nos anos 80, surge na vida da narradora um cantor americano que, até então, era praticamente desconhecido no Brasil: Barry Manilow.

    Foi amor à primeira audição. A voz. O repertório. A interpretação intensa, romântica, dramática — tudo exatamente como se gostava naquela época.

    Enquanto ninguém no Brasil falava dele, era preciso viajar para trazer os discos na mala. Dois ou três LPs cuidadosamente guardados, ouvidos até quase furar.

    E então veio a internet. Veio o Orkut. E aquela sensação de ser a única fã brasileira desapareceu. Surgiu um grupo. Amizades. Encontros em São Paulo, no Rio. Jantares, reuniões, troca de CDs, postagens, vídeos — uma comunidade inteira unida por um artista que, pessoalmente, ainda parecia inalcançável.

    As amigas iam aos shows. Viajavam. Encontravam. E ela? Só sonhava.

    Durante anos, as viagens a Las Vegas renderam shows históricos — Sinatra, Tony Bennett, grandes nomes. Mas nunca coincidiam com as apresentações de Barry Manilow. A frustração crescia.

    Até que, um dia, a vida permitiu.

    Uma viagem inesperada. Um telefonema para o Hilton. Pedido de lugar privilegiado. Medo da compra não dar certo.

    Deu.

    E o lugar era simplesmente… no palco.

    Uma das mesas redondas montadas nas laterais do palco. Duas cadeiras. Champanhe. Taças com o nome do artista gravado. E ele — a dois metros de distância.

    Foi êxtase puro.

    O marido preferiu o cassino. Ela foi sozinha. E ali, vivendo o sonho que parecia impossível, ainda fez uma nova amizade: Stacey, americana, sentada à mesma mesa. Uma amizade que começou naquela noite e atravessou os anos nas redes sociais.

    Mais do que um show, foi a materialização de uma paixão cultivada por décadas.

    Este episódio fala sobre ilusão, sim — mas no melhor sentido da palavra. Aquela ilusão que nos move. Que nos faz viajar. Que nos conecta a pessoas. Que nos faz sentir vivos.

    Às vezes, o sonho demora. Mas quando chega, ele nos coloca… no palco.

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    6 mins
  • Meus Anos Dourados
    Feb 19 2026

    Neste episódio de Uma Vida e Muitas Histórias, voltamos aos verdadeiros anos dourados da juventude carioca — uma época de uniformes azul e branco, orgulho estudantil, matinês dançantes e bailes inesquecíveis.

    Ser aluna do Instituto de Educação do Rio de Janeiro era um símbolo. Um orgulho. O uniforme azul e branco representava tradição, elegância e pertencimento. Mais do que formar professoras, o Instituto formava identidade. E ali se viveu uma fase marcada por amizades sinceras, festas improvisadas e os primeiros flertes.

    A vida social, porém, ganhava outro cenário quando o pai assume a presidência do América Futebol Clube. O clube torna-se extensão da adolescência: treinos, jogos, festas, matinês dançantes aos domingos, hino cantado com emoção antes do baile começar.

    Era a era das orquestras, dos sambas, das valsas — antes mesmo da explosão definitiva da MPB. As meninas iam prestigiar os jogadores de vôlei, basquete e polo aquático. Paquerar fazia parte do ritual, ainda que nem sempre virasse namoro.

    E então, surge um convite inesperado: participar do tradicional baile de debutantes do Copacabana Palace. Em 13 de maio de 1961, aos 14 anos, acontece uma das noites mais marcantes da vida. Vestido longo, palco iluminado, apresentação formal, valsa com o pai — e o diploma oficial de debutante do Estado da Guanabara, assinado por Carlos Lacerda.

    O brilho não parou ali. Houve também o baile de debutantes no próprio América, outra oportunidade de rodopiar pelo salão nos braços do pai — um dos momentos mais emocionantes de toda a juventude.

    Com o tempo, o pai assume a vice-presidência da Confederação Brasileira de Basquete, trazendo para perto ainda mais atletas, jogos e encontros sociais. E até um correspondente americano aparece no Brasil para conhecer pessoalmente a jovem com quem trocava cartas — vivendo dias inesquecíveis no universo esportivo carioca.

    Este episódio é sobre pertencimento. Sobre família. Sobre orgulho. Sobre dançar valsa com o pai como se o mundo inteiro estivesse parado ao redor.

    É a memória viva de uma geração que cresceu entre colunas sociais, orquestras, esporte e elegância — quando os sonhos tinham trilha sonora e os salões brilhavam sob a luz dos lustres.

    #UmaVidaEMuitasHistórias #InstitutoDeEducação #AméricaFC #CopacabanaPalace #AnosDourados #Debutante #MemóriasDoRio #JuventudeCarioca

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    11 mins
  • Quando os Festivais Mudaram a Minha Vida
    Feb 18 2026

    Neste episódio de Uma Vida e Muitas Histórias, voltamos aos inesquecíveis anos dourados — uma época marcada pelo cinema americano, pelas músicas românticas que tocavam nos discos importados e pelos sonhos juvenis embalados por vozes estrangeiras.

    Até o início dos anos 60, a trilha sonora da vida era internacional. Filmes de Hollywood, cantores americanos, letras decoradas com paixão adolescente. Mas então, algo mudou.

    Com os festivais de música popular brasileira, o Brasil virou a página.

    O marco inesquecível foi quando Elis Regina interpretou “Arrastão”, de Edu Lobo, arrebatando o público. A partir dali, nasceu uma paixão definitiva pela música brasileira.

    Vieram osgrandes nomes:Chico Buarque,Caetano Veloso,Gilberto Gil,Taiguara,Milton Nascimento,Beth Carvalho,Wilson Simonal — entre tantos outros que moldaram uma geração.

    No Maracanãzinho, eram três eliminatórias e uma final. E não se perdia nenhuma. As letras saíam nos jornais no dia seguinte, eram lidas, analisadas, debatidas. Torcidas seformavam. Margaridas eram erguidas no ar. O país inteiro vibrava.

    Canções como “Travessia”, “Carolina”, “Andança”, “Universo no Teu Corpo” marcaram época. Era difícil escolher para quem torcer — o nível artístico era impressionante.

    E houve também um momento mágico: milhares de vozes conduzidas por Wilson Simonal, transformando o Maracanãzinho em um grande coral popular. Um maestro diante de mais de dez mil pessoas, conduzindo tonalidades, criando harmonia coletiva. Um instante que ficou gravado na alma.

    Os festivais não apagaram o amor pela música estrangeira — pelo contrário. Mas deram à música brasileira o lugar que ela merecia no coração.

    Este episódio é sobre gratidão. Sobre ter vivido um momento histórico da cultura brasileira. Sobre testemunhar o nascimento de uma geração brilhante decompositores.

    É a história de quando a música brasileira deixou de ser apenas trilha sonora — e passou a ser identidade.

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    8 mins
  • Atafona: Um Estado de Espírito
    Feb 16 2026

    Neste episódio de Uma Vida e Muitas Histórias, viajamos para o norte do estado do Rio de Janeiro, para uma praia que poucos conhecem — e que, curiosamente, nunca foi considerada bonita.

    Falamos de Atafona.

    Mar escuro. Mar bravo. Mar aberto. Dunas que mudavam de lugar conforme o vento. Areia quente. Nada de comércio estruturado, nada de supermercado, nada de conforto moderno.

    E, ainda assim — era o paraíso.

    Atafona não era uma praia de cartão-postal. Era rústica. Selvagem. Havia forças de lama depois da chuva, crianças brincando o dia inteiro, pés cheios de bicho-de-pé no fim da temporada, mães com alfinetes resolvendo tudo com coragem e improviso.

    Os vendedores chegavam a cavalo, com cestos pendurados dos dois lados. Banana, abóbora, peixe fresco. O leite vinha em carroça puxada por boi. O lixo era recolhido em caixotes. Cascas de melancia podiam virar alimento para animais que apareciam inesperadamente na janela da cozinha.

    Era uma vida simples.

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    6 mins
  • Força, Doçura e 100 Anos de Vida
    Feb 15 2026

    Neste episódio profundamente emocionante de Uma Vida e Muitas Histórias, a narrativa mergulha na saudade — essa palavra tão brasileira que carrega amor, memória e eternidade.

    É a história de duas avós. De duas presenças marcantes. De duas formas diferentes de amar.

    A avó materna, Alice, mais reservada, que enfrentou cedo aquilo que hoje conhecemos como Alzheimer. E a avó paterna, Maria — carinhosamente chamada de Dona Cota — uma mulher de fibra, nascida ainda no tempo em que se falava dos ecos da escravidão, carregando consigo histórias de fazenda, tradição e resistência.

    Dona Cota foi dona de pensão em Campos. Cozinheira extraordinária, famosa por seus doces — especialmente o inesquecível doce de laranja-da-terra — e por suas feijoadas memoráveis. Quando veio morar no Rio de Janeiro, instalou sua pensão em um casarão na Rua Sorocaba, em Botafogo. Ali, acolhia jovens campistas que vinham estudar na capital, tratando cada um como filho ou neto.

    O tempo passou. A idade avançou. Vieram as quedas, as cirurgias, os sustos. Já perto dos 90 anos, enfrentou uma gangrena que poderia ter resultado na amputação do pé. Mas a decisão foi outra: uma cirurgia complexa, arriscada, que desviou uma artéria para salvar a perna. E ela venceu.

    Recuperou-se, voltou a andar, voltou à feira para escolher pessoalmente seus ingredientes, voltou a cozinhar para a família. E mais do que isso — dançou.

    Sim. Ela dançou a Valsa dos 100 Anos com o próprio filho.

    Este episódio é uma celebração da força feminina, da dignidade na velhice, do amor entre pais e filhos, e da coragem silenciosa das mulheres que sustentaram famílias inteiras com doçura e determinação.

    É uma história sobre raízes. Sobre memória. Sobre honra.

    E sobre a saudade que não dói — ela aquece.

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    7 mins