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Written by: RFI Brasil
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Bate-papo com os correspondentes da RFI Brasil pelo mundo para analisar, com uma abordagem mais profunda, os principais assuntos da atualidade.

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  • Portugal vota orçamento do Estado em meio a crise habitacional
    Oct 28 2026

    Com protestos às suas portas, o Parlamento português vota nesta quarta-feira a proposta do Orçamento do Estado para 2027. A crise da habitação tornou-se o tema central do debate político no país, inflamada pelas recentes intervenções policiais contra acampamentos de manifestantes em Lisboa e no Porto.

    Luciana Alvarez, correspondente da RFI em Lisboa

    O debate orçamentário no Parlamento abriu nesta terça-feira (27), sob o impacto direto de manifestações pelo direito à habitação digna que tomaram a região do Rossio, em Lisboa, e a Praça D. João I, no Porto, nas últimas semanas. Na madrugada de domingo, houve episódios de violência. A Polícia de Segurança Pública (PSP) cumpriu ordens para desocupar as praças onde dezenas de manifestantes acampavam, utilizando cacetetes e cães. Quem estava lá, invocando o direito constitucional à manifestação, recusava-se a sair. A intervenção resultou em pelo menos 33 feridos — nenhum deles policial — e 31 detidos por desobediência.

    A violência da ação policial contra grupos que ocupavam o espaço público de forma pacífica tensionou ainda mais o cenário. Na segunda-feira, a Inspeção-Geral da Administração Interna (IGAI), uma espécie de corregedoria da polícia, abriu um processo para apurar as circunstâncias da ação.

    A lista de demandas dos manifestantes inclui o fim imediato dos despejos e demolições quando não é oferecida uma alternativa habitacional, o congelamento e um teto para os aluguéis, um freio à compra de imóveis por fundos imobiliários e um aumento da oferta de habitação pública.

    Governo defende ação policial

    Em declarações na plenária parlamentar, o primeiro-ministro Luís Montenegro defendeu a intervenção, dizendo que a polícia agiu com “profissionalismo e equilíbrio”. O partido Chega, de extrema direita, avaliou que houve vandalismo por parte dos manifestantes e que a ação policial foi justificada. Dos partidos mais à esquerda, todos criticaram a violência da repressão, vista como desproporcional.

    Nas discussões sobre o orçamento, também há desacordos. O primeiro-ministro alega que a falta de casas é reflexo de dez anos sem construção por governos anteriores e que não há margem para incluir novas medidas no Orçamento de 2027. Depois, elencou o que já fez no setor da habitação, como inventariar 83 mil prédios públicos que devem ser reformados e usados para moradia, mudar a lei de heranças para facilitar a venda de imóveis mesmo quando algum dos herdeiros não esteja de acordo e alterar a lei dos aluguéis para facilitar despejos, o que, segundo ele, vai dar mais confiança para que proprietários coloquem seus imóveis no mercado.

    Todos os outros partidos, contudo, pedem mais verbas para habitação pública, assim como há quem defenda a suspensão da nova lei dos aluguéis, por facilitar os despejos e deixar a população mais vulnerável.

    Crise habitacional

    Os dados do Instituto Nacional de Estatística mostram que, após atingir um mínimo histórico em 2015, com apenas 9.625 casas concluídas, a construção de novas habitações voltou a subir a partir de 2016, alcançando cerca de 27 mil a 30 mil casas concluídas por ano atualmente, entre construções públicas e particulares.

    Esse ritmo de recuperação fica aquém da demanda real: o país constrói hoje apenas 23% do volume do início do século. Em 2002, por exemplo, foram concluídas 130 mil casas. Para complicar, entre 2019 e 2025, Portugal ganhou mais de 1 milhão de residentes — impulsionado sobretudo pelo saldo migratório —, enquanto construiu apenas 170 mil novas casas. Isso significa uma média de 6,4 novos residentes para cada casa construída, criando um enorme descompasso estrutural entre a oferta e a procura.

    A coligação do governo, liderada pelo Partido Social Democrata (PSD), que não tem votos suficientes para a aprovação, já tinha costurado uma aliança com o Partido Socialista (PS) para aprovar o Orçamento. Porém, isso foi antes de estourarem as manifestações por moradia. Ontem, mais uma vez, milhares de pessoas se reuniram em protesto em Lisboa, desta vez, às portas do Parlamento. O líder dos socialistas pediu a revogação da nova lei dos aluguéis, deixando subentendido que essa seria uma nova condição para seu apoio. Ainda não há indicações se Montenegro deve ceder em algum ponto para ajudar a viabilizar a lei orçamentária do próximo ano.

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  • Semana decisiva da campanha no Brasil tem guerra santa, debate sobre bets e apelo da direita por voto útil
    Sep 28 2026
    O Brasil vai às urnas no próximo domingo (4) numa eleição em que é difícil prever o resultado final da disputa à presidência da República. Pesquisas apontam que deve haver segundo turno entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolonaro (PL), mas, em tese, os dois principais adversários, que aparecem tecnicamente empatados, ainda têm condições de vencer no primeiro turno. Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília Os próximos dias são cruciais porque em geral é quando indecisos sedimentam a escolha e quando eleitores avaliam se migram para nomes com mais chance na disputa. “É aquele famoso caso de brasileiros que deixam para a última hora a escolha do voto. É um pequeno grupo, mas numa campanha acirrada, é um público importante”, afirmou Bhreno Vieira, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco. “Por exemplo, está sendo suscitado dentro do Partido Novo uma movimentação para já abandonar o voto a (Romeu) Zema no primeiro turno e focar em Flávio Bolsonaro. Mas, do jeito que as coisas estão postas e como as pesquisas estão demonstrando, nenhum dos dois candidatos tem maioria absoluta de votos necessária para encerrar a disputa no primeiro turno. O cenário eleitoral está bastante aberto sobre quem vai ser o vencedor”, destacou o analista. Desafios de Lula O candidato do PT tem entre seus desafios convencer o maior número de apoiadores a comparecer às urnas, já que o índice de abstenção costuma ser maior entre os eleitores de baixa renda, nicho em que Lula é mais forte. “Essa vantagem de Lula nesse segmento enfrenta uma questão que é o debate sobre o comparecimento eleitoral, e a tendência é de maior ausência entre eleitores com menor rendimento”, disse Vieira. O analista também frisou que hoje o maior adversário de Lula não é exatamente a figura de Flávio, mas a ideia de mudança buscada por muitos eleitores que compraram a narrativa do candidato do PL, ainda que ele seja um nome construído no sistema. A campanha de Lula, que teve dificuldade em defender o legado das gestões petistas e de apresentar bandeiras novas consolidadas, inclusive em meio à crise envolvendo Supremo Tribunal Federal, lançou mão de medidas como o reajuste do Bolsa Família e o fim das apostas online, na tentativa de gerar um debate programático nesta reta final. Desafios de Flávio Os últimos dias foram marcados por novas revelações que reforçam a relação de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro, como viagens no avião do ex-dono do banco Master, em apuração no Supremo Tribunal Federal. No entanto, foram polêmicas mais distantes da toga que geraram repercussão.Uma delas foi o embate eleitoral nos púlpitos religiosos, impulsionado pela preocupação de setores da Igreja Católica com o protagonismo do segmento evangélico na campanha de Flávio, assunto que ganhou força nas redes sociais diante da repulsa demonstrada por parte desse grupo à figura de Maria. Além de correr para conter estragos entre os eleitores católicos, Flávio tenta equilibrar o discurso para manter os eleitores de direita que já aderiram a seu nome e avançar sobre aqueles que ainda o veem como um expoente de ideias conservadoras mais radicais. “A campanha dele, de certa forma, encontra um teto, que é a questão das ideias extremas. Há uma parcela, ainda que muito pequena da sociedade, que opta em não querer nenhum e nenhum outro, mas vai ter que escolher alguém e isso pode fazer diferença”, afirmou o professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco. A relação com Donald Trump é outro exemplo. Os apoiadores de Lula são contrários à interferência dos Estados Unidos na eleição brasileira. Já os eleitores de Flávio tedem a vê-la de forma mais favorável. E uma pequena parcela ainda pesa se isso representa um risco importante a ser considerado nas urnas. Fim das bets Outro tema que virou embate entre os dois principais nomes foi a medida provisória (MP) assinada pelo presidente Lula que acabou com as apostas online. “Eu conversei com uma mulher que tentou se matar, com outra cujo filho tirou a própria vida por causa de dívida de jogo. Então eu tomei essa decisão, porque é uma coisa muito séria”, disse Lula. “Interrompo minha campanha mais uma vez para falar à nação brasileira. Lula está cometendo mais uma estelionato eleitoral, acabando com as Bets a nove dias da eleição”, criticou Flávio. O candidato do PL diz que foi o governo petista que regulamentou as apostas online, inclusive cobrando impostos desse segmento. Sustenta que não há, portanto, motivo para uma proibição às vésperas do pleito, o que classifica como medida eleitoreira. A campanha de Lula rebate afirmando que o governo regulamentou e criou regras sobre algo aprovado pelo Congresso em 2018, durante o governo de Michel Temer. E que decidiu proibir agora porque verificou que a regulamentação, feita em 2023, não surtiu efeito. Frisa também que...
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  • Espanha propõe medidas emergenciais em resposta aos protestos contra a crise habitacional
    Sep 29 2026
    O governo da Espanha anunciou nesta terça-feira (29) a suspensão dos despejos por inadimplência até 2030 e a renovação automática dos contratos de aluguel, em uma tentativa de conter a crise habitacional que atinge o país. A população espanhola se mobiliza há dias, motivada pela situação de Maricarmen Abascal, 87 anos, despejada na semana passada, após sete décadas no imóvel, pela nova empresa proprietária do apartamento onde vivia. Ana Beatriz Farias, correspondente da RFI em Madri, e AFP O caso de Maricarmen levou milhares de pessoas às ruas em defesa do direito à moradia e intensificou a pressão sobre o governo para avançar com um novo decreto relacionado à habitação. Um acordo foi fechado na segunda-feira (28) entre a empresa Urbagestión e os representantes de Maricarmen, depois de mais de quatro horas de reunião mediada pela Empresa Municipal de Habitação de Madri. As partes chegaram a um entendimento para que seja assinado um novo contrato de aluguel e Maricarmen possa voltar ao apartamento, caso esteja de acordo com as condições. O Sindicato de Inquilinas e Inquilinos de Madri, organização à frente dos protestos, já afirmou que o acampamento reivindicativo que acontece na capital continua porque as demandas apresentadas vão muito além do caso Maricarmen. Depois de o primeiro-ministro, Pedro Sánchez, prometer que medidas emergenciais seriam anunciadas nesta terça-feira para conter a crise, a ministra da Saúde, Mónica García Gómez, publicou no X novas normas que visam à suspensão dos despejos por inadimplência até 2030 e à renovação automática dos contratos de aluguel, após difíceis negociações dentro da coalizão governista. Elas fazem parte de dois projetos apresentados pelo Executivo, que ainda precisam ser aprovados pelo Parlamento, onde o governo do socialista Pedro Sánchez não dispõe de maioria. A ministra informou ainda que o governo pretende implementar, dentro desse pacote de medidas, a proibição da compra de imóveis por fundos especulativos, conhecidos na Espanha como fundos abutres. Esses fundos de investimento, assim como as plataformas de aluguel turístico de curta duração, como o Airbnb, são alvo de críticas dos movimentos em defesa do direito à moradia. Segundo os manifestantes, a prática contribui para a disparada dos preços ao adquirir imóveis no país e reduzir a oferta de habitação. O governo também prevê, entre outras iniciativas, regular os aluguéis de temporada e o aluguel de quartos, segundo Mónica García Gómez. Gota d’água da crise da moradia na Espanha O caso Maricarmen foi o estopim de um problema que já vinha provocando muita insatisfação na Espanha, sobretudo nas grandes cidades. Depois do despejo, dezenas de milhares de pessoas saíram às ruas em diferentes regiões do país. Em Madri, parte dos manifestantes permanece acampada na Praça Puerta del Sol, no centro da cidade, para pressionar o governo por medidas mais duras relacionadas ao direito à moradia. Os números ajudam a entender esse descontentamento. Segundo a OCDE, entre 2015 e 2025, o acesso à moradia ficou cerca de 25% mais difícil na Espanha quando comparado à evolução da renda da população. Ao mesmo tempo, 26,8% dos inquilinos destinam mais de 40% da renda ao pagamento do aluguel, incluindo despesas de manutenção e serviços, segundo dados de 2025 da agência de estatísticas da União Europeia, Eurostat. Governo negocia novo decreto de habitação Nesta terça-feira (29), o Executivo de Pedro Sánchez tenta levar ao Conselho de Ministros um novo decreto sobre habitação. O Partido Socialista de Sánchez e seu parceiro de coalizão, o Sumar, negociam pontos centrais do texto, como a proteção contra despejos, a regulamentação dos aluguéis temporários e a renovação dos contratos. Paralelamente, o governo busca garantir o apoio dos demais grupos parlamentares necessários para aprovar a medida. As propostas integram o chamado “decreto Maricarmen”, pacote mais amplo de medidas, reivindicado pelo Sindicato de Inquilinas. Entre elas estão o congelamento dos preços dos contratos atuais e a renovação automática dos contratos de aluguel para que passem a ser indefinidos. O sindicato já avisou que a mobilização não termina necessariamente com a aprovação de um decreto e que continuará pressionando se considerar as medidas insuficientes. Sete décadas no mesmo endereço Maricarmen morou durante setenta anos no mesmo apartamento, no bairro do Retiro, em Madri, onde chegou em 1956. O contrato de aluguel do imóvel passou do pai para a mãe e, após a morte dela, em 2005, Maricarmen permaneceu no local. Mas a Justiça considerou que essa segunda transferência contratual não era válida e que o contrato já estava extinto. Com uma aposentadoria de cerca de € 1.400 (cerca de R$ 8.280), ela nunca deixou de pagar o aluguel previsto no contrato antigo e as contas, que, somados, representavam ...
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