“Temos de nos manter fora da política, porque se fizermos filmes políticos então entramos no campo da política. Mas [o cinema é] o contrapeso da política, o contrário da política. O nosso é o trabalho do povo, não é o dos políticos.”
A frase do realizador alemão Wim Wenders, na conferência de imprensa do Festival de Berlim há uma semana, onde preside ao júri da competição, fez explodir uma polémica. Surgiram graffiti nas paredes a acusá-lo de cobardia.
A discussão sobre se o cinema deve ou não ser político esconde, na verdade, uma outra: devem os membros do júri da Berlinale tomar posição em relação ao que se passa na Palestina perante o silêncio do festival que é financiado pelo Governo da Alemanha que apoia Israel?
É legítimo "encostá-los à parede"? Ou será que Wenders, cineasta da geração do Novo Cinema Alemão, questionador do "milagre económico alemão" construído sobre a amnésia, sobre a rasura da memória do nazismo, quis dizer outra coisa e de forma mais subtil, com aquele "o cinema é o contrapeso da política", que é um statement de consequências políticas, limitando-se a ser fiel a si mesmo e a uma forma de estar no mundo que os seus filmes revelam?
É preciso olhar para o seu cinema para entender a sua frase e colocá-la num contexto mais profundo — algo a que as conferências de imprensa de hoje em festivais, presas ao impacto dos títulos nas redes sociais, tendem a escapar.
Mas há outra coisa: tem havido sempre uma relação esquizofrénica a propósito da relação do cinema com a política ou, dito de outra forma, com a política dentro do cinema. Não é recorrente ler-se ou ouvir-se que um palmarés de um festival foi "político", declaração essa que aponta para uma menorização? Onde ficamos então?
Veja-se: um dos filmes que segue a caminho dos Óscares, Foi Só Um Acidente, do realizador iraniano Jafar Panahi, recebeu a Palma de Ouro de Cannes em 2025 e também ele não se livrou logo na altura de um olhar de desconfiança: "foi um prémio político"; "se não fosse iraniano, seria considerado banal".
Voltamos por isso ao filme de Panahi, uma das estreias do final do ano passado. É uma obra que coloca o Irão perante o que será um dilema depois de o regime cair: o que farão as vítimas de hoje quando tiverem oportunidade de se vingar dos seus carrascos? É uma questão moral, tanto mais actual quanto a pressão dos Estados Unidos sobre o país dos ayatollahs está a aumentar. Depois dos mais recentes protestos na República Islâmica, e da violenta repressão como resposta, Jafar Panahi, actualmente fora do país, na campanha para os prémios da Academia de Hollywood, tem dito em entrevistas que regressará a casa; mesmo que o preço a pagar seja ser preso (novamente).
Sim, o cinema é político. O de Panahi certamente, mas o de Wenders também, de outra forma. Algo diferente é fazer política. É isso que discutimos neste episódio de No Escuro.
No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um excerto de The Hidden Desert, gentilmente cedido pelo Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe Mcphee, Kent Kessler e Chris Corsano).
Vamos libertar o cinema. Vamos tentar entender o mundo através dos filmes.
Vamos falar de cinema?
Sim, e vamos falar de outras coisas também.
See omnystudio.com/listener for privacy information.