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Pergunta Simples

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Written by: Jorge Correia
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O Pergunta Simples é um podcast sobre comunicação. Sobre os dilemas da comunicação. Subscreva gratuitamente e ouça no seu telemóvel de forma automática: https://perguntasimples.com/subscrever/ Para todos os que querem aprender a comunicar melhor. Para si que quer aprender algo mais sobre quem pratica bem a arte de comunicar. Ouço pessoas falar do nosso mundo. De sociedade, política, economia, saúde e educação.Copyright 2020 Todos os direitos reservados Philosophy Social Sciences
Episodes
  • O que é um bom livro para ler? Ana Daniela Soares
    Jan 14 2026

    Num tempo em que quase tudo é reduzido a título, excerto ou opinião instantânea, a pergunta pode parecer ingénua: o que é um bom livro para ler?

    Mas talvez seja precisamente por isso que ela importa tanto.

    Ler exige hoje aquilo que se tornou raro no espaço público: tempo, atenção, silêncio e disponibilidade para escutar o outro. Um livro não compete bem com a pressa. Não cabe em trinta segundos, não se resume num post e não se explica em três frases. E, ainda assim — ou talvez por isso mesmo — continua a ser um dos últimos lugares onde o pensamento pode amadurecer sem pedir desculpa.

    A conversa com Ana Daniela Soares, no mais recente episódio do Pergunta Simples, parte dessa pergunta simples para uma reflexão mais ampla sobre leitura, empatia e responsabilidade cultural. Não é uma conversa sobre tendências editoriais nem sobre listas de recomendações. É uma conversa sobre critérios.

    A história antes do estilo

    Para Ana Daniela Soares, a resposta começa sem rodeios: um bom livro tem de contar uma boa história.

    Não precisa de exibicionismo formal nem de complexidade gratuita. Pode ter uma escrita simples, limpa, direta — desde que haja história. Um livro que é apenas um exercício de estilo pode impressionar por momentos, mas raramente fica.

    Esta defesa da história não é conservadora nem simplificadora. Pelo contrário: é uma defesa da inteligibilidade. Uma boa história organiza o mundo, cria sentido, permite ao leitor entrar. Mesmo a escrita mais experimental precisa de um eixo que a sustente. Sem ele, o livro fecha-se sobre si próprio.

    O que faz um livro ficar

    Nem todos os livros que são publicados resistem ao tempo. A maioria desaparece com a corrente — não por falta de mérito, mas porque o tempo é um juiz implacável. Os livros que ficam tendem a partilhar um traço menos óbvio do que o talento: empatia.

    Ao longo de quase duas décadas a entrevistar escritores, Ana Daniela Soares identifica esse padrão com clareza. Os grandes autores são, regra geral, profundamente atentos ao humano. Observam, escutam, tentam compreender o outro — mesmo quando escrevem ficção. Essa empatia não é sentimentalismo; é método. É a capacidade de olhar para fora de si, de manter a “janela aberta para a rua”.

    É também por isso que tantos grandes livros parecem falar do presente antes de o presente se tornar evidente. A literatura funciona como radar. Capta movimentos subterrâneos da sociedade, conflitos ainda difusos, tensões que só mais tarde se tornam notícia. Quando a realidade explode, muitas vezes o livro já lá estava.

    Ler no tempo do algoritmo

    Num ecossistema mediático dominado pelo algoritmo, pela velocidade e pela simplificação, a leitura longa tornou-se um gesto quase contracultural. Hoje pede-se ao leitor que decida rápido, que consuma rápido, que passe à frente se algo exige esforço.

    Mas um livro não funciona assim. Exige insistência. Exige entrega. Exige, sobretudo, a liberdade de largar — e de regressar mais tarde. Há livros que não são para um determinado momento da vida. E isso não os torna menores.

    Ler tudo não significa ler bem. O valor está na variedade, no risco, na disposição para sair do confortável. E também na capacidade de reconhecer quando um livro não nos está a dizer nada — sem culpa excessiva, mas com honestidade.

    O risco de deixarmos de ler a sério

    A pergunta final é talvez a mais inquietante: o que acontece se deixarmos de ler a sério?

    A resposta não é abstrata. Há consequências cognitivas, emocionais e culturais. O cérebro muda. A capacidade de atenção diminui. A empatia enfraquece. A compreensão do outro torna-se mais pobre.

    Ler não é apenas entretenimento. É treino. É exercício mental. É uma forma de aprender a viver com complexidade sem fugir dela. Uma sociedade que deixa de ler com tempo e exigência empobrece — não apenas culturalmente, mas democraticamente.

    Um critério simples, uma exigência alta

    No fim, a resposta à pergunta inicial é simples — e exigente.

    Um bom livro é aquele que conta uma boa história, nasce da empatia, resiste ao tempo e nos obriga a parar. Não para escapar ao mundo, mas para o compreender melhor.

    Num tempo acelerado, ler continua a ser uma forma de resistência.

    E talvez, ainda, uma das formas mais profundas de comunicação que nos restam.

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    49 mins
  • Qual é o papel da arte na conversa pública? Rui Melo
    Jan 7 2026
    Escuta, empatia , arte, polémica e comunicação

    Porque é que ouvir se tornou tão difícil? No Pergunta Simples, a conversa com Rui Melo cruza teatro, polémica e criação artística para refletir sobre escuta, mudança de opinião e o lugar da arte na discussão pública.

    No mais recente episódio do Pergunta Simples, Rui Melo passou pelos principais temas do seu trabalho artístico e pelas ideias que têm marcado a sua reflexão pública sobre comunicação, escuta e o papel da arte na sociedade contemporânea.

    Ator, encenador, músico e argumentista, Rui Melo está atualmente em cena com a peça “Arte”, de Yasmina Reza, um texto centrado na amizade, no desacordo e na dificuldade de aceitar o ponto de vista do outro. A peça serviu como ponto de partida para uma conversa mais ampla sobre a forma como lidamos com opiniões divergentes, tanto no espaço público como nas relações pessoais.

    Logo no início da conversa, Rui Melo afirmou que um dos maiores problemas do nosso tempo é a perda da capacidade de ouvir. Para o ator, ouvir não é apenas escutar palavras, mas estar genuinamente disponível para mudar de opinião quando confrontado com novos argumentos ou factos. Essa disponibilidade, defende, tornou-se rara numa sociedade cada vez mais rígida e polarizada.

    A conversa passou depois para a forma como o debate público se transformou nos últimos anos. Rui Melo criticou a ideia de que todas as opiniões têm o mesmo peso, independentemente do conhecimento ou da experiência de quem as emite, e sublinhou que a proliferação dessa lógica dificulta o diálogo e a aprendizagem. As redes sociais, acrescentou, não criaram este fenómeno, mas amplificaram-no, dando visibilidade a discursos que antes ficavam circunscritos a espaços mais limitados.

    No plano artístico, Rui Melo defendeu uma visão da arte como espaço de provocação e fricção. Para si, a função da arte não é confortar nem agradar, mas provocar um efeito emocional e intelectual, mesmo que isso implique desconforto ou polémica. É nesse enquadramento que surge a sua participação em projetos que suscitaram debate público.

    Ao falar do trabalho em “O Arquiteto”, Rui Melo fez questão de sublinhar que se trata de uma obra de ficção e não de um documentário. O objetivo, explicou, nunca foi oferecer respostas fechadas, mas levantar questões e incentivar a discussão sobre temas sensíveis, como o abuso de poder, o assédio ou o silêncio coletivo em torno de determinados assuntos. As reações opostas ao projeto — críticas por ir longe demais e por não ir suficientemente longe — foram, para si, um sinal de que a discussão estava a acontecer.

    A conversa abordou também os limites da escuta. Rui Melo reconheceu que nem todas as opiniões merecem diálogo e que existem fronteiras pessoais que não está disposto a ultrapassar, sobretudo quando o discurso do outro não procura diálogo ou aprendizagem, mas apenas provocação. Ainda assim, distinguiu essas situações do debate genuíno, que pressupõe escuta mútua e abertura.

    No contexto profissional, o ator descreveu o trabalho artístico como um processo de afinação constante: de ritmo, de tom e de relação com o outro. A chamada “química” entre pessoas, afirmou, não é um dado fixo, mas algo que se constrói através da escuta, da atenção e da disponibilidade para ajustar.

    Ao longo do episódio, Rui Melo regressou várias vezes à ideia de maturidade e dúvida. Citando uma canção que o marcou, afirmou sentir-se numa fase da vida em que as certezas caducam — não como sinal de fragilidade, mas como consequência natural de quem continua disponível para aprender.

    A conversa terminou sem conclusões fechadas, mas com uma ideia transversal a todos os temas abordados: comunicar bem exige tempo, escuta e a capacidade de aceitar que o outro pode ter razão. Num contexto marcado por respostas rápidas e posições rígidas, essa atitude surge como um exercício cada vez mais raro – e cada vez mais necessário.

    Uma conversa para ouvir devagar.

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    52 mins
  • Contas-me uma boa história? Rui Cardoso Martins [ESSENCIAL]
    Dec 31 2025
    No Fim do Ano, Uma Conversa Sobre o Que Está em Causa Com Rui Cardoso Martins, no Pergunta Simples No último dia do ano, o Pergunta Simples oferece uma conversa que nos obriga a parar, escutar e pensar. Num tempo de urgências e distrações, Rui Cardoso Martins senta-se ao microfone para falar da única coisa que nunca sai de moda: a palavra — e tudo o que ela transporta. Escritor, cronista, argumentista, dramaturgo, repórter de guerra e professor universitário. Rui é um dos mais versáteis criadores da língua portuguesa. Um faz-tudo da escrita, como diz de si mesmo, capaz de passar do teatro à televisão, da reportagem à literatura, do humor à tragédia — sem perder a integridade, nem a humanidade. Esta conversa percorre décadas de jornalismo, atravessa fronteiras geográficas e morais, revisita tribunais e zonas de guerra, e detém-se naquelas perguntas que importam sempre: o que está em causa aqui? O que fazemos com o que vemos? Como escrevemos a memória? A Escrita como Resistência Rui começou no jornalismo nos anos 90, no nascimento do jornal Público. Foi repórter nos Balcãs durante o cerco de Sarajevo, embarcou no Lusitânia Expresso rumo a Timor, e cobriu as primeiras eleições livres na África do Sul. Testemunhou a História em carne viva — e sobreviveu a ela escrevendo. Um olhar atento, uma ironia serena, e uma linguagem afinada como um motor de avião: porque escrever mal, diz ele, pode ser mais perigoso do que um mecânico incompetente. Do jornalismo passou para a ficção, sem nunca abandonar o rigor. As crónicas judiciais Levante-se o Réu revelaram o teatro trágico e grotesco da justiça portuguesa, num tom que une Fernando Namora e Monty Python. A sua literatura — premiada e traduzida — transporta o peso da experiência, mas também a leveza de quem sabe rir do absurdo. Rui escreve como quem repara o mundo. De madrugada, antes que os Pokémons acordem, com uma folha branca como animal de companhia. O tempo da escrita é anterior ao ruído, à velocidade, à obrigação. É o momento em que a linguagem ainda não foi contaminada. A Memória e o Corpo da Palavra A entrevista percorre também o terreno íntimo da memória. Rui fala do papel dos cadernos, dos rituais, dos mestres como Cardoso Pires e Lobo Antunes — e da descoberta inesperada de que, sim, talvez seja mesmo um escritor. Há pudor, mas não pose. Há humor, mas não cinismo. Há sobretudo uma preocupação com a precisão: “tudo o que acontece no mundo passa pela linguagem”, diz ele. E acrescenta: quando a mentira tem o mesmo peso da verdade, estamos à beira da desgraça. A sua voz não é a de um moralista, mas a de um observador treinado. Rui descreve Sarajevo como um lugar onde o vizinho passou a ser o inimigo. Fala de genocídio, da escolha de um lado — e da ilusão de neutralidade em tempos de barbárie. Fala da Avenida dos Snipers, dos campos de futebol transformados em cemitérios, da ausência de cães, de gatos, de calor. A sua literatura é feita dessa matéria: o choque entre o que era e o que se tornou. Do Humor à Tragédia: a Responsabilidade de Dizer Criador de frases como o célebre “Penso eu de que…”, Rui ajudou a moldar o humor político com Contra-Informação, Herman Enciclopédia e Conversa da Treta. Mas vê nessa sátira algo mais profundo do que entretenimento. O humor é uma forma de resistência. Uma forma de pensar por dentro da linguagem, de devolver o ridículo ao poder, de encontrar o ponto fraco do discurso dominante. Fala da responsabilidade de quem escreve. De como se pode usar a palavra para curar ou para envenenar. De como a verdade se perde quando todas as versões da realidade parecem ter o mesmo valor. E de como o jornalismo, quando feito com rigor, ainda pode ser um antídoto para a manipulação. O Mundo que Vem A conversa fecha com uma pergunta que nos interpela a todos: a Europa está pronta para viver sozinha? Num tempo de guerras em curso, de democracias frágeis e de redes que amplificam o boato, Rui não tem ilusões: ou lutamos pela liberdade, pela educação, pela justiça, ou perdemos. A escrita, nesse contexto, é mais do que estética — é ética. No fim do episódio, Rui confessa: só quer contar histórias úteis. Úteis no sentido mais profundo da palavra. Histórias que sirvam para entender o mundo e para não esquecer. Histórias que transformem o banal em universal, o pequeno em essencial. Porque, como diz, não há escritor sem memória. E não há futuro sem narrativa. Este episódio foi originalmente publicado no Pergunta Simples, mas regressa agora como parte da nossa coleção Essencial. Uma conversa profunda, com valor reconhecido. Ouça ou reveja com tempo: continua atual, necessário e transformador. LER A TRANSCRIÇÃO DO EPISÓDIO Esta transcrição foi gerada automaticamente. A sua exatidão pode variar. 0:12 Rui Cardoso Martins: Jornalista, Escritor e o Faz-Tudo da Palavra Neste episódio, vamos aprender a ...
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    50 mins
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