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Enterrados no Jardim

Enterrados no Jardim

Written by: Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho
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Diogo Vaz Pinto e Fernando Ramalho à conversa, leve ou mais pesarosamente, fundidos na bruma da época, dançando com fantasmas e aparições no nevoeiro sem fim que nos cerca, tentando caçar essas ideias brilhantes que cintilam no escuro, ou descobrir a origem do odor a cadáver adiado, aquela tensão que subtilmente conduz ao silêncio, a censura que persiste neste ambiente que, afinal, continua a sua experiência para instilar em nós o medo puro. Vamos desenterrar, perfumar e puxar para o baile os nossos amigos enterrados no jardim, e deixar as covas abertas para empurrar lá para dentro aqueles que só aí andam a causar pavor e fazer da vida uma austera, apagada e vil tristeza.© 2024 Enterrados no Jardim Art Social Sciences
Episodes
  • Os traficantes de realidade. Uma conversa com Raquel Ribeiro
    Oct 17 2026
    Uma greve de fome é um diminuendo prolongado, angustiante. Sem nada para comer, o corpo começa lentamente a devorar-se a si próprio. Na Irlanda, a memória da Grande Fome, como lhe chamou o historiador Cecil Woodham-Smith, constitui um sedimento de cólera na consciência nacional, revolvido sempre que uma greve de fome volta a acontecer. Foi o que sucedeu com Bobby Sands. Entre outras reivindicações, Sands exigia o reconhecimento do estatuto de preso político. Nem ele nem os nove jovens camaradas do Exército Republicano Irlandês (IRA) que, em 1981, lhe seguiram os passos até à morte por inanição voluntária chegaram a obtê-lo. Para Margaret Thatcher, então primeira-ministra britânica, não passavam de criminosos que tinham voltado a violência contra si próprios. Naquele ano, no decorrer de uma visita à Arábia Saudita, quando lhe perguntaram pelos membros do IRA detidos na prisão de alta segurança de Maze, na Irlanda do Norte, em protesto para poderem ser considerados “presos políticos” em lugar de prisioneiros de “delito comum”, a Dama de Ferro responde: “Não existe atentado político ou violência política. Não vamos ceder nesse ponto. Não haverá estatuto político. Um crime é um crime é um crime. Não é político. É crime e não pode haver qualquer possibilidade de conceder estatuto político.” Faltavam menos de dois meses para que Bobby Sands morresse na prisão, ao fim de sessenta e seis dias em greve de fome. Os mártires irlandeses tinham um imoderado gosto pela poesia e geralmente deixavam para trás pelo menos uma frase memorável. A de Sands possivelmente terá sido esta: «A nossa vingança será o riso dos nossos filhos.» Em 1982, em plena ditadura chilena, a poeta Carmen Berenguer fica abalada pela morte de Bobby Sands, e dedica-lhe Bobby Sands desfallece en el muro, um conjunto de fragmentos-manifesto em homenagem ao revolucionário irlandês, fazendo da poesia o “único modo de mudar/ a pólvora por jardins de paz”. Berenguer atava assim o laço da solidariedade entre os presos políticos chilenos, nas masmorras da ditadura de Pinochet, à luta dos republicanos irlandeses por uma Irlanda unificada e livre da ocupação britânica, pegando na mão esfaimada de Sands para lhe(s) anunciar (mutuamente, talvez) a possível Primavera aos seus povos. Como escreveu Sands: “Estou à espera da cotovia/ que na Primavera é tudo/ para nós./ Agora, no meu leito de morte/ continuo a ouvir/ os corvos negros.” Este epitáfio é puxado para epígrafe do livro, e Berenguer assinala como aquela notícia veio colocar em perspectiva toda uma época trágica, e abrir caminho a uma nova forma de relação com a política. “Pareceu-me uma situação-limite, uma acção através da inanição, sustentada por uma convicção indiscutível, por um amor tão grande pelos seus ideais que alguém era capaz de morrer por eles. A minha pergunta era como escrever sobre a fome e pensei que devia evitar a sua biografia, uma vez que esta estava implícita nos relatos dos meios de comunicação. Procurei então perceber o que era importante, qual seria a afirmação de alguém que leva a cabo uma acção tão radical e consciente, que me obrigava a pensar o texto, que já tinha escrito em tercetos. Estes surgiram enquanto pensava na história da Irlanda. Foi numa cela de convento que os terminei e corrigi, num quarto com uma cama muito pequena, uma mesa-de-cabeceira e uma janela tão diminuta que me dava a sensação de estar numa prisão chilena.” Publicado originalmente de forma artesanal em Santiago de Chile em 1983. Cada poema assinala um dia de jejum. Por volta do trigésimo quarto dia, o discurso passa à primeira pessoa, transformando a dor de um corpo levado ao limite num manifesto de resistência íntima. Eis uns excertos: “É a fome das ruas/ o absoluto rigor da fome”. “Débil chega o mar/ ao meu quarto/ medindo-me/ entre os dedos de algas”. “Náuseas, a náusea:/ Com os lábios pintados/ vomita a morte”. “Estou no limiar de um outro mundo vacilante”, escreveu o próprio Bobby Sands. E Seamus Heaney, no livro de ensaios The Government of the Tongue, de 1988, procura nos poetas da Europa de Leste o padrão de referência à luz do qual se revelam as insuficiências da "imaginação insular, vernácula e britânica", assinala naqueles poetas a força de um cometa que rasga os céusatravés de umm testemunho literário da História capaz de lançar um olhar que procura o nosso e não nos deixa virar a cara “perante os factos da dor, a recorrência da injustiça e da catástrofe”, e que eleva as suas obras à condição de “martirológio moderno, um registo de coragem e sacrifício”. Para poetas como o russo Óssip Mandelstam, os polacos Czesław Miłosz e Zbigniew Herbert, ou o checoslovaco Miroslav Holub, “o impulso de dizer a verdade e a compulsão de se identificar com os oprimidos tornam-se necessariamente parte integrante do ...
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    4 hrs and 28 mins
  • Libertar Ulisses do purgatório. Uma conversa com Miguel Bonneville
    Oct 9 2026
    Mal se dorme nesta época, talvez porque as noites estão cheias de confissões, sugere ele, o que as liga umas às outras, abre esses canais de pernoita, essas funções burocráticas que converteram esta geração à insónia. Müller admite que desde 1789 nenhuma revolução na Europa ou onde quer que fosse encontrou outro modo de sobrevivência que não a cultura da denúncia, essa perseguição que os homens se movem, a título de ensejo moralizador. Mas chegamos a um tempo dos acusados, a esta mediocridade expiatória, que, pelo menos, justificaria a necessidade de cada um ilibar-se, o que leva a à obsessão de se narrar de forma coerente, para não deixar nenhuma hora das suas vidas por registar. Alguns, no entanto, em vez dessa compulsão delirante de viver os dias documentando-se, produzindo a cada passo uma duplicação por escrito, em registo biográfico, preferem desentender-se consigo mesmos, não se solidarizar de nenhum modo, e até escarrar em cima dessa infeliz, recusando serem crucificados nesse excesso de coincidência com um perfil identitário. «A partir do século XVIII, a cultura da autenticidade construiu-se exaltando o ideal de verdade face a si e aos outros: a ‘escrita do eu’ oferece dela uma ilustração perfeita», diz-nos Lipovetsky. «Com as Confissões, Rousseau abre caminho a uma nova forma de falar de si, de se contar, de se dizer até nos pormenores mais íntimos da vida. Uma tarefa tão perigosa que Rousseau não hesita em declarar que ninguém o fez antes dele próprio. A famosa frase que enceta essa obra não tem qualquer ambiguidade a este respeito: ‘Vou empreender uma coisa sem exemplo e cuja realização não será imitada. Quero mostrar aos meus semelhantes um homem em toda a verdade da natureza, e esse homem serei eu.’ Pela primeira vez, um homem normal, sem qualidades, toma a liberdade de escrever um livro onde são revelados os seus segredos, os pormenores mais íntimos da sua vida, os seus sentimentos, os seus erros, grandes e pequenos. A ambição proclamada consiste eme inaugurar uma nova forma de se pintar sem hipocrisia e sem esconder o que quer que seja aos leitores, revelar um homem por inteiro, tal como é, sem máscaras, ‘em toda a sua verdade’. Celebrando a expressão sincera da subjectividade, Rousseau cria um novo género literário – a narrativa autobiográfica –, cujo modelo fixa e cujo atractivo, subsequentemente, não será desmentido», diz-nos Lipovetsky. Se este regime de algum modo se universalizou, talvez o capitalismo, com os seus principais combustíveis – a inveja e a vingança – a actuarem na subjectividade de cada um, tenha elevado este género a um modelo fundamental, enredando-nos nessa constante performance «egográfica», e à medida que a subjectividade ou a autenticidade se viam contaminadas pela função espectacular, pela competição em todas as esferas, a mitologia da veracidade foi sendo devassada. Enquanto o infraordinário e o banal recobriam toda a expressão, e as imagens na sua reprodução enfática absorviam as representações cada vez mais insistentes, dominadas pelo falso brilho dos clichés comerciais e publicitários, o verdadeiro foi dando lugar a outra coisa, a uma inversão nada subtil, a uma produção de fantasias em que todo o tédio se vai estetizando, e a retórica do verdadeiro dá lugar à frivolidade, à provocação do exibicionismo narcísico, da teatralidade sensacionalista, que tantas vezes procura legitimar o discurso procurando guindar essas manifestações a uma lógica transgressiva, desafiadora. Mas, na verdade, todo este regime contribui para uma reificação dos elementos de expressão e comunicação, aberto à disposição das massas, aos seus humores e sonhos factícios, que subscrevem sempre tendências, reforçando os consumos. Num certo sentido, todo expediente permitiu salvar o poder ao colapso que teria significado a morte de Deus e o advento do niilismo. Como nos diz Agamben, se para Nietzsche como para Dostoiévski, estas rupturas significavam algo de tão terrível que os homens jamais poderiam aceitá-los sem porem radicalmente em questão a sua própria existência, o filósofo italiano entende que neste caso estes dois autores proféticos falharam a compreensão do que estava a emergir. «O niilismo tornou-se a condição normal da humanidade, mas, ao contrário de Kiríllov, o homem comum de hoje parece viver com a morte de Deus e com o niilismo sem sofrer nem se importar, literalmente como se nada estivesse a acontecer.» Mas «se, como o próprio Nietzsche sugeriu, o niilismo, plenamente realizado e apreendido enquanto tal, constitui a grande oportunidade da humanidade para escapar ao seu destino letal – se, como pensava Benjamin, o niilismo pode tornar-se o método de uma nova política –, então a pergunta que temos de fazer a nós próprios é: ‘Por que razão esta oportunidade não foi aproveitada? O que nos impediu de fundar ...
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    4 hrs and 4 mins
  • Tudo menos ser mulher. Uma conversa com Cláudia Sobral
    Oct 2 2026
    Perdidas na história umas das outras, trocando os nomes, entre tantos véus, máscaras, disfarces, estão nas suas próprias vidas como personagens, dando por si descobrindo-se despindo segundo os desejos de outros, as instruções, esse olhar que lhes refez a carne. Algumas despertam em segredos, raspando um fósforo, secretas incendiárias com vontade de que a chama pudesse consumir tudo, chegam a considerar-se da espécie da destruição mais do que dos homens, e se conseguem exprimir o seu desejo falam de algo nas margens do sono, ruínas para lá dos nomes, admitindo que tiveram de coser na pele com linhas que não encontravam rumo na linguagem. Vi uma revolvendo as cinzas, procurando ler uma mais vasta profecia, alguma indicação quanto à geografia reconhecida por aquelas que são tidas como loucas. Trazem no sangue um remorso antigo de outras quedas. Acumularam culpas, e pareceu-lhe que os nomes que lhes deviam ser próprios só soavam de forma clara se nomeassem catástrofes naturais. O mais difícil era segurar a memória, pois só nela reconheciam uma vida depois da morte. A morte ali era um começo. Liam cartas, diários, restos que ficavam dos dias, tinham de ir à volta, criando uma cumplicidade nas zonas que a luz da história não alcança. Ali se reconheciam como uma linhagem forçada a residir nas dobras do tempo… «E o mais importante é não amar. Vejam o que fiz comigo própria por o amar tão profundamente! É tão doloroso e humilhante, mas ele acha que isso é simplesmente uma tolice. “Dizes uma coisa e fazes sempre outra.” Mas para que serve discutir desta maneira superior, quando não há em mim senão este amor humilhante e um mau feitio? E estas duas coisas foram a causa de todas as minhas desgraças, porque o meu temperamento sempre se interpôs no meu amor. Não quero senão o seu amor e a sua compreensão, e ele não mos dá; e todo o meu orgulho é calcado na lama; não sou senão um miserável verme esmagado, que ninguém quer, que ninguém ama, uma criatura inútil, com enjoos matinais e uma grande barriga, dois dentes podres e um mau feitio, com o sentido da dignidade espezinhado, e um amor que ninguém quer e que quase me leva à loucura.» Eis uma entrada do diário de Sofia Tolstói. Não faltam outras, escrevendo com a mesma mão, mergulhada nas águas de um imenso espelho. Naturalmente, têm uma estranha relação com os espelhos… «Se admitirmos que o poder evocativo do espelho só se revela quando nele se reflecte alguma coisa, então o espelho é recordação e é coisa ao mesmo tempo, coisa reflectida – quando não reflecte, o espelho é um ser que espera», escreve Maria Filomena Molder. «Por isso é tão surpreendente como natural que aquele que disse uma palavra e se afastou daquele que a poderia ouvir, no sentido de para sempre, de já não estar entre nós, se converta num espelho para aquele que recorda a palavra dita ou que a lê, se ela foi passada a escrito. A palavra abandonada, isolada do seu sopro vivo, anuncia essa metamorfose silenciosa, que não é exactamente uma metamorfose, mas uma espécie de empalidecimento exangue a que tudo o que é vivo fica reduzido quando se torna numa recordação. O espelho é assim um dos objectos que nos introduzem no reino dos mortos, é um dos graus numa iniciação: cada um é, será, um espelho.» Não é neste mundo que se reconhecem, mas só naquele que começa depois de se esgotarem as imagens imediatas, só naquele mundo que se faz daquilo que cantam. Não conhecem outra coisa senão a natureza mutante do mundo, como as formas são meras passagens, variações, peles que se despem, ecos, lembranças… Lilith, Eva, Agar, Jezabel, Dalila, Jahi, Tamar, Kali, Fátima, Artemis, Hera, Isis, Maria, Ishtar, Bathsheba, Vashti, Cleópatra, Helena, Salomé, Elisabete, Clitmnestra, Medeia, Joana, Circe, Morgana, Medusa… Perseguidas por ficções, contos de fadas, condenadas a procurar em vão o lugar exacto onde a lenda e a história se separam, como sugere Dworkin. De nada lhes vale tentar separar os factos da ficção. O mundo inteiro foi forjado enquanto uma sucessão de evidências de forma a provar que estão enganadas, a realidade só serve mesmo para as desmentir. A sensação de injustiça pode ser o pior dos venenos. «Mas as sereias têm uma arma mais terrível do que o seu canto: o seu silêncio», lembra Kafka. «Embora não tenha acontecido, seria contudo passível de se imaginar que alguém pudesse salvar-se do seu canto, mas por certo não do seu silêncio. Ao sentimento de havê-las vencido com a própria força, à exaltação avassaladora consequente, nada de terreno pode resistir.» É terrível observar como algumas mulheres ficam diante do espelho, o cuidado que põem na forma como se arranjam, parecendo que o fazem para indecências com os mortos. Com o passar dos anos, este mundo já não consegue levá-las ao canto, e se ainda movem os lábios, o sopro escapa-nos, soam mais ...
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    3 hrs and 36 mins
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