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Três especialistas apresentam e discutem temas de importância atemporal das humanidades, das artes e das ciências, expondo o melhor e mais atual estágio de conhecimento sobre cada assunto. Philosophy Science Social Sciences World
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  • As Viagens de Marco Polo
    Apr 9 2026
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    No final do século XIII, num mundo que ainda não tinha contornos definidos e onde mapas misturavam cidades reais com monstros marinhos, num tempo em que a sombra – e o sangue – das Cruzadas se estendiam sobre a Europa e os sonhos da cavalaria a inspiravam, um adolescente partiu com seu pai e seu tio de uma república mercantil a quem o Adriático sussurrava segredos distantes; atravessou desertos implacáveis, montanhas que roçavam os céus e rios que serpenteavam como veias de civilizações esquecidas; atingiu o coração do maior império terrestre de todos os tempos; tornou-se um emissário privilegiado da corte de Kublai Khan; e percorreu sua vasta teia de conquistas, enfrentando bandidos nômades, tempestades que engoliam caravanas, mares governados por monções, e povos cujas línguas ecoavam como enigmas ancestrais.

    Mais do que uma aventura individual, a odisseia de Marco Polo foi um acontecimento civilizacional. Pela primeira vez, um europeu percorreu com continuidade e atenção um mundo asiático vasto, organizado, sofisticado – e regressou, 24 anos depois, para descrevê-lo. Não como alegoria teológica, nem como fábula moral, mas como um inventário de lugares, povos, riquezas, técnicas, rotas e costumes. Um olhar moldado tanto pela curiosidade quanto pelo cálculo; tanto pelo assombro quanto pela utilidade.

    O Livro das Maravilhas do Mundo é o mais célebre relato de viagens já escrito. Ditado a um romancista numa prisão genovesa, nele se mesclam o fabuloso e o factual, a imaginação e a contabilidade. Cidades de ouro convivem com sistemas de correio imperial; relatos de palácios flutuantes em lagos artificiais com descrições minuciosas de moedas, pesos e mercadorias; histórias de rinocerontes tomados por unicórnios e especiarias que incendiavam os sentidos, com observações frias sobre impostos, canais, papel-moeda e pólvora. É um texto onde o maravilhoso medieval não desapareceu, mas começa a ser disciplinado pelo olhar moderno que mede, compara e registra.

    O seu Oriente não é apenas exótico; é administrado, conectado, produtivo. O seu Ocidente não é apenas curioso; é mercantil, inquieto, pronto a expandir seus horizontes. Entre ambos, abre-se uma zona de contato onde a Idade Média vislumbra, sem saber, a aurora do mundo moderno. Marco Polo inaugurou a era das grandes descobertas, inspirando Colombo a velejar para o desconhecido, Vasco da Gama a desbravar continentes e Fernão de Magalhães a contornar o planeta. Por séculos ele moldou – e ainda molda – a maneira como o Ocidente sonhou o Oriente – e, em alguma medida, a si mesmo.

    Convidados


    Andrea Carla Dore: professora de história moderna da Universidade Federal do Paraná.

    Flavia Galli Tatsch: professora de história da arte medieval da Universidade Federal de São Paulo. e

    Luiz Estevam de Oliveira Fernandes: professor de história atlântica da Universidade Estadual de Campinas.

    Ilustração: Marco Polo parte de Veneza. Iluminura para um manuscrito do séc. XV de “Il Milione” (domínio público)

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    1 hr and 10 mins
  • A Guerra Civil Americana
    Feb 27 2026
    Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Há guerras que se travam por territórios nacionais, e há guerras que se travam pela alma de uma nação. A guerra civil americana foi ambas – e mais: foi a morte e ressurreição de um povo julgado no tribunal da própria consciência. Em meados do século XIX, os Estados Unidos viviam uma contradição intolerável: proclamavam-se pátria da liberdade e igualdade, mas, no Sul, latifúndios tecidos em algodão e abastecidos por sangue erguiam pórticos brancos sobre lombos negros; no Norte, forjado em ferro e vapor, a fé no trabalho livre fundia-se ao fundamentalismo puritano. No choque entre essas civilizações, as palavras começaram a ferir mais que armas: púlpitos tornaram-se trincheiras, romances e hinos viraram bombas de efeito moral, e a própria Bíblia foi dilacerada entre os que a liam para justificar a escravidão e os que a liam para massacrar escravizadores. Quando Abraham Lincoln, um abolicionista de origens humildes e convicções de aço, triunfou no combate eleitoral, as fronteiras viraram abismos. O que se seguiu foi não só um conflito militar, mas uma espécie de juízo final – uma travessia pelo inferno da modernidade. Ferrovias, telégrafos, encouraçados, nitroglicerina e proto-metralhadoras transformaram os campos de batalha em máquinas de aniquilação, antecipando a guerra total do século XX. Nenhuma guerra sacrificou mais americanos que a guerra a dos americanos contra si mesmos. Sobre milhares de cadáveres nas valas comuns de Gettysburg, o conflito encontrou sua esperança, nas palavras que Lincoln gravou na eternidade: a nação concebida na convicção de que todos nascem iguais sob Deus deveria viver o parto sangrento da liberdade, para que o governo do povo, pelo povo, para o povo jamais pereça sobre a terra. Mas a vitória da União não trouxe paz – apenas outro tipo de guerra. Lincoln tombou sob a bala de um extremista, e seu sonho de uma reconstrução magnânima, “com malícia para ninguém, com caridade para todos”, foi muitas vezes virado às avessas. Entre os vencedores, as promessas de união se mesclaram à libido da vingança. Os vencidos retaliaram com códigos que restituíam a servidão e com o terror noturno das milícias brancas. A guerra terminou nos mapas, mas continuou na alma americana. Quando o sangue secou, começou a batalha pela memória. O Norte celebrou precocemente – e às vezes hipocritamente – a redenção; o Sul se evadiu na fábula da “Causa Perdida”, mas nobre, onde a derrota virou honra, o regime escravocrata, um idílio cavalheiresco, e o vento levou as promessas de cidadania negra. A segregação durou mais 100 anos, até o movimento dos direitos civis, ao preço de vidas como a de Martin Luther King. Entre o mito e a culpa, o trauma e o ressentimento, os Estados Unidos seguiram marchando – às vezes aos tropeços, às vezes em círculos – tentando reconciliar-se consigo mesmos. E, ainda hoje, sob monumentos de bronze, tensões raciais e guerras culturais, ecoa o alerta de Lincoln: pode uma casa dividida permanecer de pé? Convidados Leandro Gonçalves: professor de história militar do Instituto Federal de São Paulo e autor da tese A Revolução em Assuntos Militares no Contexto da Guerra de Secessão. Marcos Sorrilha: professor de história da América da Universidade Estadual Paulista e produtor do Canal do Sorrilha sobre a história dos Estados Unidos. Vitor Izecksohn: professor de história da América da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de Duas Guerras nas Américas. Referências Brado de Guerra da Liberdade: A Guerra Civil dos Estados Unidos (Battle Cry of Freedom: The Civil War Era) e For Cause and Comrades: Why Men Fought in the Civil War, de James M. McPherson.Nada Além da Liberdade (Nothing but Freedom – Emancipation and Its Legacy), The Story of American Freedom e The Second Founding: How the Civil War and Reconstruction Remade the Constitution, de Eric Foner. Duas Guerras na América: Raça, Cidadania e Construção do Estado nos Estados Unidos e Brasil (1861-1870), e “Escravidão, federalismo e democracia: a luta pelo controle do Estado nacional norte-americano antes da Secessão” (revista Topói), de Vitor Izecksohn.A revolução em assuntos militares no contexto da Guerra de Secessão Americana (1861-1865), de Leandro J.C. Gonçalves. “Guerra de Secessão”, de André Martin, em História das Guerras, org. Demétrio Magnoli.“Guerra Civil nos EUA: os antecedentes do conflito que formou a nação” e “Estados Unidos após a Guerra Civil” no podcast Hora Americana.A Guerra de Secessão: a guerra civil que dividiu os EUA, episódio do Podcast História FM.The American Civil War, documentário de Ken Burns produzido pela PBS.“American Civil War”, série em quatro episódios para o podcast The Rest is History.A History of the American People, de Paul Johnson.The Unfinished Nation: A ...
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    1 hr and 15 mins
  • Dom Quixote
    Jan 28 2026
    Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts Existem livros que são como cidades antigas: habitados por gerações, percorridos por caminhos óbvios e veredas secretas. E há os que são como caravelas em oceanos desconhecidos, onde cada leitor é simultaneamente navegante e vento, rasgando rotas que não deixam vestígios. Dom Quixote é as duas coisas. Uma história clara e fresca – acessível até às crianças – e, ao mesmo tempo, inesgotável como as grandes criações humanas. Paradoxalmente, a força de sua mensagem nasce da leveza de sua execução. Nela, se agitam forças contraditórias: a sátira e o lirismo; o impulso de desconstrução e o desejo de transcendência; o sublime e o ridículo. Nascido de uma vida temperada por batalhas, cativeiro, sonhos de grandeza e frustrações ainda maiores, o livro absorveu a irreverência das novelas picarescas, a observação psicológica da filosofia humanista e a crítica social do teatro para sintetizar a alma do Século de Ouro espanhol, suspensa entre a glória imperial e a melancolia da decadência, entre o canto de cisne do cavalheirismo medieval e o alvorecer da civilização burguesa. Mas mais do que retrato de seu tempo, Cervantes forjou um espelho da condição humana. Dom Quixote e Sancho Pança não encarnam apenas opostos, mas se complementam numa totalidade simbólica – um, a encarnação do idealismo que se choca com o real; o outro, a do realismo que humaniza o ideal. Sua jornada é uma peregrinação às raízes da existência, o diálogo interminável da alma consigo mesma: a poesia do sonho e a prosa da realidade; a ânsia do absoluto e o peso do corpo; o céu estrelado e a estrada poeirenta. Cervantes ri da fantasia sem zombar da esperança; critica a vida, mas abraça sua dignidade, mostrando que, quando há paixão moral, mesmo o delírio pode esconder verdades profundas, e, quando não há, a lucidez pode ser a maior das cegueiras. O riso que desmonta ilusões, é o mesmo que nos liberta para amarmos o mundo. Não é à toa que esta é a ficção mais popular de todos os tempos e o quarto livro mais vendido do planeta, atrás apenas de obras confessionais – a Bíblia, o Corão, o Livro Vermelho de Mao Tsé-Tung. Não há uma única vida que se queira humana sem trazer em si algo de uma aventura quixotesca; um só coração que não se recuse a reduzir a vida apenas ao que é visível. Com seu Cavaleiro da Triste Figura, Cervantes deu carne ao arquétipo universal do homem que luta pelo impossível, e cravou no coração da humanidade uma interrogação que jamais será calada – o que é mais louco: sonhar um mundo melhor ou se conformar ao mundo como ele é? Convidados Erivelto Carvalho: Professor de Literatura Espanhola da Universidade de Brasília e co-autor de Os Ibéricos: História, Liberdade e Literatura. José Luis Martinez Amaro: Professor de Literatura Espanhola da Universidade de Brasília e coordenador do grupo de pesquisa “Retórica e historiografia na literatura hispânica”. Maria Augusta da Costa Vieira: Professora de Literatura Espanhola da Universidade de São Paulo e autora de Dom Quixote: A Letra e os Caminhos. Referências Dom Quixote: A Letra e os Caminhos; Cervantes Plural; e A narrativa Engenhosa de Miguel de Cervantes: Estudos Cervantinos e Recepção do Quixote no Brasil, de Maria Augusta da Costa Vieira. Vida de Dom Quixote e Sancho (Vida de Don Quijote y Sancho), de Miguel de Unamuno.“Miguel de Cervantes” em O Cânone Ocidental (The Western Canon), de Harold Bloom. Lições sobre Dom Quixote (Lectures on Don Quixote), de Vladimir Nabokov.“Dulcineia Encantada”, em Mimesis de Erich Auerbach. Cervantes em “Antibarroco”, Capítulo VI, do Volume II da História da Literatura Ocidental, de Otto Maria Carpeaux. El Pensamiento de Cervantes, de Américo Castro. Don Quichotte, de Paul Hazard.Cervantes o la crítica de la lectura, de Carlos Fuentes. The Man Who Invented Fiction: How Cervantes Ushered in the Modern World, de William Egginton.Aproximación al Quijote, de Martín de Riquer. Cervantes’ Don Quixote: A Casebook, ed. por Roberto González Echevarría. Cervantes y su época, de R. León Máinez.Miguel de Cervantes Saavedra, de J. Fitzmaurice-Kelly. Cervantes y su obra, de A. Bonilla y San Martín.Don Quijote als Wortkunstwerk, de H. Hatzfeld.Sobre la génesis del Don Quijote, de J. Millé Jiménez.La invención del Don Quijote em de M. Azaña.Cervantes, de R. Rojas.Cervantes, de A.F.G. Bell.Sentido y forma del Don Quijote, de J. Casalduero.Intención y silencio en el Quijote, de R. Aguilera.“Dom Quixote”. Episódio do programa Literatura Universal com Maria Augusta da Costa Vieira. “Don Quixote”, episódio do programa In Our Time, da Radio BBC 4. Don Quijote y Cervantes em RNE, coleção de produções radiofônicas da RNE espanhola. “Cervantes y la leyenda de Don Quijote”, documentário da RTVE. “Un ...
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    59 mins
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