Ouça o podcast: Spotify | Deezer | Apple Podcasts No final do século XIII, num mundo que ainda não tinha contornos definidos e onde mapas misturavam cidades reais com monstros marinhos, num tempo em que a sombra – e o sangue – das Cruzadas se estendiam sobre a Europa e os sonhos da cavalaria a inspiravam, um adolescente partiu com seu pai e seu tio de uma república mercantil a quem o Adriático sussurrava segredos distantes; atravessou desertos implacáveis, montanhas que roçavam os céus e rios que serpenteavam como veias de civilizações esquecidas; atingiu o coração do maior império terrestre de todos os tempos; tornou-se um emissário privilegiado da corte de Kublai Khan; e percorreu sua vasta teia de conquistas, enfrentando bandidos nômades, tempestades que engoliam caravanas, mares governados por monções, e povos cujas línguas ecoavam como enigmas ancestrais.
Mais do que uma aventura individual, a odisseia de Marco Polo foi um acontecimento civilizacional. Pela primeira vez, um europeu percorreu com continuidade e atenção um mundo asiático vasto, organizado, sofisticado – e regressou, 24 anos depois, para descrevê-lo. Não como alegoria teológica, nem como fábula moral, mas como um inventário de lugares, povos, riquezas, técnicas, rotas e costumes. Um olhar moldado tanto pela curiosidade quanto pelo cálculo; tanto pelo assombro quanto pela utilidade.
O Livro das Maravilhas do Mundo é o mais célebre relato de viagens já escrito. Ditado a um romancista numa prisão genovesa, nele se mesclam o fabuloso e o factual, a imaginação e a contabilidade. Cidades de ouro convivem com sistemas de correio imperial; relatos de palácios flutuantes em lagos artificiais com descrições minuciosas de moedas, pesos e mercadorias; histórias de rinocerontes tomados por unicórnios e especiarias que incendiavam os sentidos, com observações frias sobre impostos, canais, papel-moeda e pólvora. É um texto onde o maravilhoso medieval não desapareceu, mas começa a ser disciplinado pelo olhar moderno que mede, compara e registra.
O seu Oriente não é apenas exótico; é administrado, conectado, produtivo. O seu Ocidente não é apenas curioso; é mercantil, inquieto, pronto a expandir seus horizontes. Entre ambos, abre-se uma zona de contato onde a Idade Média vislumbra, sem saber, a aurora do mundo moderno. Marco Polo inaugurou a era das grandes descobertas, inspirando Colombo a velejar para o desconhecido, Vasco da Gama a desbravar continentes e Fernão de Magalhães a contornar o planeta. Por séculos ele moldou – e ainda molda – a maneira como o Ocidente sonhou o Oriente – e, em alguma medida, a si mesmo.
Convidados
Andrea Carla Dore: professora de história moderna da Universidade Federal do Paraná.
Flavia Galli Tatsch: professora de história da arte medieval da Universidade Federal de São Paulo. e
Luiz Estevam de Oliveira Fernandes: professor de história atlântica da Universidade Estadual de Campinas.
Ilustração: Marco Polo parte de Veneza. Iluminura para um manuscrito do séc. XV de “Il Milione” (domínio público)
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