2h da manhã, estrada de terra batida no interior profundo do Brasil. Breu palpável, silêncio denso quebrado só pelo ronco do motor. Faróis cortam a noite e iluminam uma gameleira retorcida. Tem algo grudado no tronco. Primeiro cérebro acha que é cipó grosso. Aí revela: figura esquelética, murcha, proporções impossíveis.
Você passa a poucos metros e vem o som: unhas compridas arranhando lataria rasgando o silêncio. Depois cheiro sufocante de terra úmida com podridão absoluta invade a cabine com vidro fechado. Sobrecarga de pânico. Na biologia, esse cheiro é morte.
Esse é o Corpo Seco. Não é espírito da floresta. É humano que forjou a própria maldição. Interior de SP, serras de Minas e Centro-Oeste: homem violento que espancava a própria mãe, negava comida pros filhos deixando definhar de fome enquanto roubava vizinhos. Rompeu todos os pactos. Em roça sem Estado, família é tudo. Abominação. Nenhuma rezadeira aceitou rezar por ele - abandono espiritual absoluto, última linha de misericórdia negada.
Enterro normal, 7 palmos na terra batida sem caixão luxuoso. Manhã seguinte coveiro acha cova escancarada, terra rachada de baixo pra cima com força absurda, cadáver cuspido pro sol. Cavaram mais fundo, compactaram. Dia seguinte mesma cena, corpo já secando, não apodrecendo. Terceira vez terra ao redor morreu: grama secou, raiz apodreceu, solo estéril. Vírus tóxico expurgado.
Padre cunhou: Deus não quis, o diabo não aceitou e a terra rejeitou. Céu repudia, inferno recusa - ruim demais até pro inferno - e matéria se recusa a decompor. Apátrida em 3 dimensões.
Anatomia: pele marrom escura quase negra, esticada ao extremo tipo couro de boi curtindo no sol meses, costelas desenhadas, olhos abismos negros, unhas grossas pretas afiadas cheias de terra da cova. Conhecido como Encourado em Minas e Goiás. Sem metabolismo, sem calor, frio existencial da sepultura. Caça calor corporal como réptil em pedra quente - dependência parasitária.
Tática: se funde a troncos grossos nas matas ciliares perto de estrada de terra, em hibernação. Abraçado à árvore esperando calor de vítima. Reflexo trágico do abraço humano que negou? Prisão sob medida.
Provas materiais: caminhoneiro Goiás-Franca 1h30 da manhã, farol piscando, figura tipo sanguessuga na gameleira, acelera e unhas arranhando metal + cheiro denso invade cabine fechada. Caminhoneiro Serra da Canastra, neblina, vulto magro espantalho de couro humano em tronco de pequi, buzinou e não reagiu, mesmo cheiro, 4 marcas profundas rasgando pintura até aço. Trabalhador rural SP 3h da manhã indo ligar bomba no riacho, lanterna revela figura abraçada de costas pra luz escondendo rosto, dia seguinte marcas de unhas no alto da braúna altura vertiginosa. Em Goiás se desloca de mourão em mourão de cerca arame farpado pra não tocar chão, arame vibrando sozinho é alerta.
Aviso final: se acordar e achar arranhões paralelos longos e finos na lataria que não são de galho, é marcação deliberada. Sondou calor dormindo e marca pra voltar e drenar energia nas próximas noites. Cerco predatório.
Ferramenta de controle moral onde lei não chegava. Folclore como tribunal. Que abominações modernas estamos germinando hoje?
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