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RFI Convida

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Written by: RFI Brasil
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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.France Médias Monde Social Sciences
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  • Guinga, um mestre da música brasileira em nova temporada europeia
    Oct 14 2026
    Aos 76 anos, o violonista carioca Guinga faz uma nova turnê europeia, que passa por França, Bélgica e Inglaterra, e se encerra no final de outubro em Paris. Autor de uma obra reverenciada por músicos, críticos e intérpretes, Guinga evita falar de si como um mestre. Prefere falar dos encontros. "Eu acho que o palco é como a mesa. Você fazer uma refeição sozinho é bem menos marcante do que você fazer uma refeição com alguém que você ama", disse o artista, em entrevista à RFI. A comparação surge quando comenta os concertos que divide nesta temporada com músicos como Yamandu Costa, Anna Paes e Débora Dienstmann. Embora cada parceiro traga sua personalidade artística, Guinga diz que suas apresentações não deixam espaço para o acaso. "Eu não improviso nada", afirma. A música, para ele, nasce do trabalho minucioso de composição e do diálogo entre intérpretes que compartilham uma mesma visão da obra. Anna Paes, cantora e violonista que se dedica há mais de uma década ao seu repertório, tornou-se também parceira de composição do carioca. Já Débora Dienstmann, cantora brasileira radicada na Itália, vem se destacando como uma das intérpretes europeias mais próximas de sua música. Para Guinga, o palco é antes de tudo um espaço de convivência. "Na vida a gente tem que aprender a compartilhar", resume. A frase ajuda a compreender a trajetória singular de um artista que nunca seguiu os caminhos convencionais da carreira musical. Embora tenha começado profissionalmente aos 16 anos, Guinga interrompeu a atividade artística para estudar odontologia. Trabalhou durante 32 anos como dentista e foi justamente essa estabilidade que lhe permitiu compor sem concessões. "Eu pude investir na arte, então eu compus a maior parte da minha obra quando era dentista e grande parte dentro do consultório de dentista", recorda. Daquele consultório saiu uma das obras mais originais da música brasileira contemporânea. Enquanto exercia a odontologia, Guinga compunha canções que mais tarde seriam gravadas por artistas como Elis Regina, Chico Buarque, Clara Nunes, Ivan Lins, Leila Pinheiro, Sérgio Mendes e Michel Legrand. Parceiro de letristas como Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Nei Lopes e Chico Buarque, construiu um repertório cuja sofisticação nunca perdeu o vínculo com a tradição popular que o formou. A admiração que desperta entre músicos é proporcional à singularidade de sua criação. Hermeto Pascoal resumiu esse sentimento numa frase que se tornou célebre: "Um cara como esse só aparece a cada cem anos". Segunda turnê na França A atual turnê europeia é produzida pela cantora, instrumentista e compositora Aurélie Tyszblat, que há anos se dedica à divulgação da obra de Guinga na França. Ela própria se diz surpreendida pelo fato de o compositor ter se apresentado tão pouco em Paris ao longo da carreira, apesar de passar regularmente por outros países europeus. "Eu não explico, mas eu lamento", afirma. Foi essa constatação que a levou a produzir seu primeiro concerto na capital francesa, em 2018. Para Tyszblat, a música de Guinga "ajuda a viver, ajuda a sentir a nossa humanidade" e merece ser transmitida a novas gerações de ouvintes e músicos. Ao falar dos jovens músicos que encontra nas masterclasses promovidas durante a turnê, Guinga demonstra preocupação com as dificuldades enfrentadas pelas novas gerações para encontrar espaço. "Essa é a luta, é a pessoa se impor fazendo aquilo que ela acredita." Sem condenar nenhum gênero musical, Guinga defende a liberdade criativa. Em uma de suas imagens mais inspiradas, lembra que até os erros podem abrir caminhos inesperados. "Às vezes você dá uma nota errada num acorde e descobre que ele fica mais bonito com a nota errada." A reflexão o leva a uma conclusão que vale tanto para a música quanto para a vida: "Eu acho que a missão do ser humano é tentar melhorar nessa baldeação que ele faz aqui no planeta." Primeiro disco tardio Essa visão humanista reaparece com força quando fala de Aldir Blanc, parceiro decisivo em sua trajetória. Guinga recorda que só lançou seu primeiro disco autoral aos 41 anos e atribui isso, em grande medida, à obstinação do letrista. "Meu primeiro disco foi gravado por uma verdadeira batalha que ele travou para que eu conseguisse fazer meu primeiro disco aos 41 anos." Ao lembrar do amigo, a emoção ultrapassa o terreno artístico. Além de compartilharem a formação na área da saúde, Aldir Blanc como médico psiquiatra e Guinga como cirurgião-dentista, os dois carregavam experiências semelhantes da juventude sob a ditadura militar. Guinga recorda que ambos enfrentaram a censura ainda muito jovens e chegaram a ser presos antes mesmo de se conhecerem. Essa trajetória comum ajudaria a consolidar, décadas depois, a afinidade que ele descreve como uma verdadeira irmandade. "Ele me ajudou muito como ser humano também." 'Brasil regride' com a ...
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  • 'O audiovisual é ferramenta de transformação social', diz produtora de documentários em Biarritz
    Sep 30 2026
    A produtora Mariana Genescá apresenta no Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz dois documentários com olhares distintos sobre o Brasil contemporâneo: Pau D'Arco, premiado em festivais brasileiros e dedicado à luta por justiça após um massacre de trabalhadores rurais no Pará, e A Fabulosa Máquina do Tempo, que acompanha crianças de uma pequena cidade do Piauí. Em entrevista à RFI, ela falou sobre a importância de levar essas histórias ao público internacional. Maria Paula Carvalho, enviada especial da RFI a Biarritz Enquanto um documentário revisita uma das mais violentas disputas fundiárias da história recente do Brasil, o outro mergulha no universo lúdico de crianças que descobrem o direito de imaginar o próprio futuro. Os dois longas documentários brasileiros em competição no Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz têm em comum a produtora Mariana Genescá, que vê nas obras uma reflexão sobre o impacto das políticas públicas. "São dois filmes muito diferentes entre si, mas que falam de coisas muito caras para a gente", resume a produtora. "Um é muito duro, muito difícil. O outro traz esse frescor e essa esperança." Justiça após o massacre Exibido em Biarritz na segunda-feira (28), Pau D'Arco, da jornalista e diretora Ana Aranha, acompanha os sobreviventes da chacina ocorrida em 2017 na Fazenda Santa Lúcia, no Pará, quando uma operação policial terminou com a morte de dez trabalhadores rurais. Segundo Mariana Genescá, o público francês demonstrou interesse tanto pela história quanto pelo contexto político brasileiro. O debate após a sessão permitiu discutir os desafios da reforma agrária, mas também avanços alcançados nos últimos anos. Uma das principais conquistas destacadas pela produtora foi a regularização da terra ocupada pelas famílias que protagonizam o documentário. "O assentamento foi conquistado pelas famílias que ocuparam a terra. As famílias estão recebendo a posse da terra. Isso a gente considera uma importante vitória", comemora. Além da questão fundiária, o filme acompanha a longa batalha judicial em torno do caso. Genescá destaca que a repercussão da obra contribuiu para manter o tema em evidência e ampliar a mobilização em torno do julgamento. "Depois de oito anos parado, o julgamento foi agendado. Os policiais vão a júri popular e poderão finalmente ser julgados", afirma. Ela ressalta, porém, que ainda existem desafios importantes, entre eles a identificação e responsabilização dos mandantes do massacre. Uma infância no sertão O segundo documentário apresentado por ela em Biarritz, A Fabulosa Máquina do Tempo, da diretora Elisa Capai, troca o cenário dos conflitos agrários pelo cotidiano de crianças do município de Guaribas, no interior do Piauí. Narrado por uma menina de dez anos, o filme acompanha a passagem da infância para a adolescência e nasceu de uma relação de longa duração entre a diretora e a comunidade. Guaribas ficou conhecida por ter sido a cidade-piloto do programa Bolsa Família. Para Genescá, a obra oferece uma perspectiva otimista sobre o Brasil contemporâneo. "Esse filme é um sopro de esperança", define. A partir do olhar infantil, o documentário aborda temas complexos como desigualdade social, machismo estrutural e alcoolismo. "A partir do olhar das crianças, de uma forma muito lúdica, a gente discute temas muito complexos e muito sérios", explica a produtora. A história acompanha uma geração que cresceu com acesso a oportunidades antes inacessíveis para muitas famílias da região. "É uma geração de meninas que pela primeira vez tem o direito de sonhar, que tem comida na mesa, que pode frequentar a escola", destaca. Da Berlinale para a França Depois de estrear em fevereiro deste ano na mostra Generation do Festival de Berlim, na Alemanha, A Fabulosa Máquina do Tempo chega agora ao público francês. A recepção na Berlinale, segundo a produtora, foi marcada por sessões lotadas e forte participação do público. A expectativa é que o interesse europeu pelo Brasil e pela América Latina contribua para ampliar o alcance da obra. "Eu acho que eles vão aproveitar muito. Vão poder viajar com a gente nessa máquina do tempo", diz. Cinema como transformação social Para Mariana Genescá, a presença simultânea de dois documentários brasileiros na competição de Biarritz representa mais do que um reconhecimento profissional. É também uma oportunidade de mostrar como o audiovisual pode contribuir para o debate público. "Eu acredito realmente no audiovisual como ferramenta de reflexão e de transformação social", afirma. Em sua avaliação, Pau D'Arco e A Fabulosa Máquina do Tempo se complementam ao retratar duas faces do país: de um lado, a violência provocada pela ausência de direitos e políticas públicas; de outro, as possibilidades abertas quando essas políticas chegam à população. "Que a gente possa usar os filmes...
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  • A literatura brasileira continua conquistando leitores na França, diz professora emérita da Sorbonne
    Oct 8 2026
    Apesar da crise da leitura e do fechamento de livrarias, a literatura brasileira continua despertando curiosidade e interesse na França, impulsionada por editoras especializadas, festivais literários, universidades e novos temas que dialogam com as preocupações da sociedade francesa. A avaliação é da professora emérita da Sorbonne Nouvelle, Jacqueline Penjon, uma das principais especialistas em literatura brasileira no país e responsável por traduzir para o francês obras fundamentais da cultura brasileira. Em entrevista à RFI, Penjon afirma que o cenário atual é muito diferente daquele que ela conheceu no início da carreira. Segundo a professora e tradutora, a presença brasileira no mercado editorial francês se consolidou graças ao trabalho de agentes culturais que ajudaram a ampliar o acesso dos leitores à produção literária do país. “Há uma diferença enorme entre os anos 1970 e hoje. Há uma série de editoras especializadas, livrarias especializadas e também eventos”, afirma. Ela destaca ainda que, assim como acontece com a música brasileira, a literatura continua atraindo um público jovem: “A literatura interessa muito um público jovem, o que é muito bom”. Penjon atribui parte desse interesse aos intercâmbios literários entre os dois países. Ela lembra a primeira edição do festival Les Belles Étrangères, em 1987, quando o Brasil foi o país convidado e uma delegação de escritores percorreu a França, reunindo nomes como Jorge Amado, Lygia Fagundes Telles, Ferreira Gullar, Nélida Piñon, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Fonseca e Raduan Nassar. “Uma dúzia de escritores brasileiros esteve presente e realmente foi uma grande descoberta para o público”, recorda. Se durante décadas os nomes mais associados à literatura brasileira na França foram Jorge Amado, Clarice Lispector e Machado de Assis, o interesse dos leitores franceses se diversificou progressivamente. A partir dos anos 1980 e 1990, autores contemporâneos e gêneros variados passaram a conquistar espaço na França. Além dos grandes clássicos, escritores como Milton Hatoum e Patrícia Melo ajudaram a ampliar o interesse do público francês pela produção brasileira contemporânea, incluindo a literatura policial e novas vozes da ficção nacional. Nas universidades, os clássicos permanecem centrais nos cursos de português e estudos lusófonos. No entanto, Penjon observa uma mudança significativa entre os estudantes de pós-graduação, que têm demonstrado interesse crescente por temas ligados às transformações sociais do Brasil. “Entre os estudos de mestrado, a gente vê muito esse tipo de escolha, que antes não tinha”, explica. Segundo ela, obras de autores indígenas, de mulheres negras e de escritores que abordam questões sociais contemporâneas encontram receptividade entre os jovens pesquisadores franceses. “Agora os jovens escolhem esses livros”, ressalta. Mudança nos hábitos de leitura A professora reconhece, porém, que o hábito de leitura enfrenta desafios. Como em outros países, as redes sociais e o consumo digital reduziram o tempo dedicado aos livros. “Infelizmente está diminuindo, porque a internet e as redes sociais já ocupam o tempo todo”, lamenta. Ainda assim, ela acredita que a formação universitária e a existência de bibliotecas, sebos e livrarias especializadas ajudam a preservar o contato com a literatura. Mesmo diante das mudanças no mercado editorial, Penjon vê razões para o otimismo. O surgimento de novas livrarias dedicadas à produção lusófona e o interesse contínuo por autores brasileiros indicam que o diálogo cultural entre os dois países permanece vivo. Riqueza estilística é freio para IA A pesquisadora também acredita que a riqueza estilística da literatura brasileira representa um limite para o avanço da inteligência artificial no trabalho de tradução. “Guimarães Rosa, traduzido por uma inteligência artificial, não é possível, não é possível”, afirma, sorrindo diante do exemplo que considera uma demonstração dos limites da tecnologia na tradução literária. Para a professora emérita da Sorbonne, embora ferramentas automatizadas possam servir para textos mais simples, a tradução literária continua exigindo a sensibilidade e a criatividade dos tradutores humanos. Em um contexto de transformação dos hábitos de leitura, a literatura brasileira segue encontrando leitores na França. E, segundo Jacqueline Penjon, o interesse não se restringe aos grandes clássicos: ele se renova à medida que novos autores brasileiros chegam às livrarias francesas e dialogam com questões que mobilizam as novas gerações.
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